Ter e ser

Ary Avellar Diniz
Diretor do Colégio Boa Viagem e da Faculdade Pernambucana de Saúde

Publicação: 06/05/2017 03:00

Os verbos iniciais, na aprendizagem escolar, são ‘ser’ e ‘ter’ praticamente em qualquer idioma, a partir da conjugação do presente do indicativo.

Com o passar do tempo, o ex-iniciante aprendiz dá outras conotações ao ‘ter’ e ao ‘ser’, dependendo do apetite da pessoa em questão.

‘Ter’, para uns, significa desejo de possuir cada vez mais. Essa afirmativa pode-se referir, como exemplo, aos modestos construtores que realizaram inicialmente prédios pequenos, de pouca significação comercial, mas almejavam, mais adiante, alcançar a realização de várias edificações grandes e vistosas.

Pernambuco contempla não um, mas vários profissionais desse tipo de atividade, que fazem crescer a Veneza brasileira.

O criador de bois não se conforma em ter insignificante boiada e parte para conquistar maior número de cabeças de gado.

Recentemente, o público tomou conhecimento das notícias difundidas na imprensa nacional sobre a atuação irresponsável de certos frigoríficos brasileiros. Sem tomar partido da ocorrência, tida como criminosa, ratificou-se, ao menos, que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo.

A grande maioria desses pecuaristas conheceu início de vida restrito à criação de bois.

O jovem, nos dias de hoje, quando reúne condições, tem-se voltado para ‘ter’, idealizando atuação na iniciativa privada pela criação do seu próprio negócio.

A propósito, recentemente bati um papo com um rapaz que vem reunindo experiência em atividade comercial, na qualidade de gestor de um restaurante herdado do seu avô. Em determinado momento, ele me perguntou: “Você sabe qual o caminho para se realizar um franchising?” Desde cedo, já pretende ‘ter’ cada vez mais.

É louvável o crescimento particular do cidadão, embora não se deva dar um passo maior que a perna. “O perigo mora ao lado.”

Mudando o assunto para o ‘ser’, dá-se que na classe política, em alguns casos, políticos se tornam protagonistas do ressurgimento das Capitanias Hereditárias, ao encaminhar o filho ou a filha para sua atividade profissional. Aí, a família quer ‘ser’!

Os militares e eclesiásticos particularmente se envaidecem de ‘ser’, fruto da sua profissão. O jovem, ao ingressar na escola militar, geralmente sonha em alcançar o generalato. Os sacerdotes convictos, recém-ordenados, pretendem, no futuro, alcançar a posição de bispo, arcebispo, cardeal e, se possível, papa.

Será que Francisco, desde seminarista, não pensava em ser o chefe da Igreja Católica Apostólica Romana?

Do que foi dito, cabe a seguinte reflexão: Como se encontram aqueles que já partiram desta vida, gozaram em demasia as posições de ‘ter’ e ‘ser’ e procederam usando de meios cruéis e abusivos para com seus humildes semelhantes ou praticaram atitudes escusas, corruptas, no afã de ‘ter’ mais e mais?…

Antes, deveriam pensar que: mortalha não tem bolso; e, sem sombra de dúvidas, não adianta ser o rei da cocada preta.

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