Máquinas e gangues

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 05/05/2017 03:00

Há dois séculos, na Inglaterra, a revolução técnica, industrial, enfrentou a reação violenta dos luditas - um grupo de homens mascarados, organizados, que defendiam os desempregados pelo processo de modernização. No avanço, as maquinas  provocavam desemprego e fome de milhares de trabalhadores, enquanto empresários e setores médios ganhavam com a mecanização e redução da mão de obra.

Daí  os luditas quebravam teares, destruíam fábricas, enfrentando o Império que usou 12 mil soldados para combater o movimento e a Lei Antidestruição de Maquinas, Nessa fase, apenas uma voz se ergue na Camara dos Lords – a do poeta Lord George Byron. Então argumentou que eles não destruíam as máquinas por preconceito, mas por decisão tática - as maquinas reduziam empregos, gerando mais pobreza e miséria.

A Lei estabeleceu a pena capital, o enforcamento para as “gangues”. Era 1812 e restou a Byron protestar com lucidez “Aquela gangue trabalha os campos de vocês. Aquela gangue os serve nas casas de vocês. Aquela gangue é que permite que vocês desafiem o mundo. Aquela gangue também é capaz de desafiar vocês, porque o descaso e a calamidade levou aqueles homens ao desespero, Chamem-nos de gangue, mas não esqueçam que uma gangue, muitas vezes, dá voz aos sentimentos do povo”.

A repressão, portanto, não impediu a luta que resultou no direito de associação dos trabalhadores, em 1824. Eco da voz de Lord Byron, que avançou na França,  Bélgica, noutros países da Europa e nos Estados Unidos. Naquele país, no dia 8 de março de 1867, - Dia da Mulher desde 1910 - 129 grevistas foram queimadas numa fábrica em Nova York. Em Chicago, em 1886. no dia 1º de Maio, a violência matou grevistas, lembrados em 1899, na França, que instituiu o Dia Internacional do Trabalho.

No Brasil, em 1858, os gráficos entraram em greve no Rio, sendo reprimidos pela policia e pelos donos de jornais. As greves crescem no final do século e na primeira década do século XX acontece a greve das operárias em São Paulo, na Mooca, em 1917 - a primeira greve geral do país, reivindicando oito horas de trabalho e melhorias salariais. Nos anos 20, houve progresso na luta sindical e em Pernambuco, em 1941, foi fundado o Sindicato dos Jornalistas, dois anos antes das garantias da CLT, de 1943, que foram decisivas para mediar os conflitos nas greves de 1970 e 1980 lideradas pelos metalúrgicos - fase do regime ditatorial –  e por outras categorias nas décadas de 1990 e neste século XXI.   

A legislação trabalhista, portanto, não prejudicou a economia e o desenvolvimento do país. Assim é falso o discurso que defende as reformas das leis trabalhistas, do sistema de previdência, com promessa de gerar mais emprego. É ilusório, pois na prática visa ampliar as privatizações, implantar o “estado mínimo” e a submissão às forças do mercado. É um crime contra o país, a maioria do seu povo, que tem de enfrentar os efeitos das secas, o desafio das “novas maquinas” - que desempregam e agravam a recessão – com a defesa do seu mercado, dos empregos e da soberania nacional, preservando o que resta de direitos e conquistas sociais.

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