Apelo de uma órfã da esperança

Júlia Helena Sousa
Graduanda em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco, pesquisadora no Grupo Asa Branca de Criminologia, artista plástica aquarelista e ativista feminista

Publicação: 03/05/2017 03:00

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Peguei-me lendo os noticiários e pensando nas palavras de Caetano. Desde que comecei a me entender socialmente como mulher, sempre achei maravilhoso fazer parte desse universo. Nossos corpos “têm um quê” de magia, de delícia de ser. Porém, mais efetivamente nos últimos tempos, o peso de carregar esses corpos se tornou motivo de luto.

A sensibilidade ao tema me expôs a uma atenção maior a qualquer roda de conversa entre mulheres, por esses dias. Comecei a detectar o comodismo que nós criamos nessa sociedade patriarcal. Sim, nós também somos culpadas.  As jornadas triplas são normais e justificadas por “é muito raro encontrar um companheiro que aceite cuidar também das tarefas domésticas”. E mesmo quando esse companheiro existe, ele é exaltado de uma forma sobrenatural: por cumprir funções que nós desempenhamos sem nenhum mérito e que nos foram socialmente impostas, por nossa suposta docilidade, afeição ao lar e submissão financeira ao “chefe da família”.

Mas o que isso tem a ver com um galã de novela que assedia uma simples figurinista, a vizinha que foi morta a facadas, as vítimas cotidianas de estupro (muita vezes, não por um homem, mas por vários) ou a esposa suporta um casamento falido, sofrendo maus-tratos cotidianamente, porque tem que garantir o pão dos filhos?

Poder e cultura. Uma resposta curta com grandes desdobramentos. Um poder que sai dos baús da história, atormentando a passagem da menina que sai sozinha da faculdade pela rua erma. Que perpetua na pele da mulher negra os anos de servidão aos senhores de engenho. Que sustenta a hostilidade e a violência – física e psicológica- dos maridos, dos pais, dos padrastos, dos irmãos, dos tios; num lugar em que supostamente deveríamos nos sentir seguras.  Uma cultura que não restaura o ambiente familiar nas pilhas de processo sentenciadas por violência doméstica e que garante que uma mulher, que desempenha o mesmo trabalho que um homem, tenha uma menor remuneração. Bodes para serem livres e as cabras encarceradas.

Diante do cenário pavoroso, longínquo e, ao mesmo tempo, tão próximo; foi necessário explodir. E não somente uma vez. Nós explodimos para sermos capazes de ter nossas garantias políticas respeitadas, enquanto cidadãs, no século passado. Explodimos nas décadas de 60 e 70, pelo respeito a nossa escolha à maternidade e a necessidade de métodos contraceptivos. Agora clamamos pelas nossas vidas. Gritamos para sair desse estado de (sobre)vivência, tentando seguir nesse caminho tortuoso de medo, que eu não deveria passar porque sou mulher. Principalmente a essa hora e com essa roupa.

Peço que parem de nos matar. O discurso é simples e o de sempre (não nos cansaremos de repetir), mas a prática deve ser contundente: nós não queremos superioridade. Queremos andar lado a lado, tendo nossas vozes, vontade e corpos respeitados. E, sim, homens, é importante que vocês sejam nossos aliados nessa batalha, mas não nos dizendo o que fazer. É essencial que vocês reconheçam os privilégios que te deram a partir do nascimento, principalmente se você faz parte do grupo seleto de pessoas brancas, heterossexuais e que se identificam no gênero masculino (outros muitos tabus que esse diálogo enseja, mas que é pano pra muitas outras mangas).

A mudança precisa partir de uma reflexão interna a uma prática bem-sucedida. Em que todas e todos estejam envolvidas(os), com o compromisso de empatia e respeito. Num mundo que se abra a nos ouvir verdadeiramente sobre as violações que sofremos, em que a vítima não é causa do problema, mas de uma força motriz para construirmos um paradigma de equidade de gênero.

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