Dirceu engrandece soneto com obra consistente e vigorosa

Raimundo Carrero *
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Publicação: 01/05/2017 03:00

Depois de destacar a importância da renovação literária, tomando como modelo a obra inaugural de Kerouac e Ginsberg, por exemplo, retomo aqui a tradição poética brasileiras do soneto e da absoluta obediência a rimas, ritmos e métricas, sobretudo no soneto, considerando o trabalho de Dirceu Rabelo, o celebrado escritor da Academia Pernambucana de Letras, ao lado de José Luiz Melo, um dos fundadores da geração 65. Mestre na arte deste modelo literário.

É verdade também que nem Dirceu nem José Luiz estão preocupados com renovação. Nem nunca. Teemn sólida formação conservadora e a exercitam muitíssimo bem. Veja-se agora a Sexta dezena de sonetos, constante da série Sonetos circunstanciais, numa publicação das edições Novo Horizonte de Lourdes Nicácio uma plaquete de ótima qualidade gráfica, capa com uma reprodução de quadro de Zuleno, o pintor que marcou época no Recife, e que se vê restaurado, magnificamente, neste trabalho.

O leitor deve se perguntar a que linhagem estética estou filiado ao revolucionário literário ou ao conservadorismo? Nem uma coisa nem outra, meu caro. É claro que a Beleza não tem idade; o que está em análise, sempre, é a qualidade do artista Kerouac idolatrava Tólstoi, mas desmontou todo Tólstoi para construir a obra que o consagrou, embora detratado por uns e elogiado por outros.

Porque no camnpo das artes, as coisas são assim. A fé e a devoção que um artista consagra à construção da obra estão acima de qualquer outra determinação.

É preciso, antes de tudo, amar com fervor a criação, cada movimento, cada circunstância, cada situação e manter a fé. Inabalavelmente. Sempre e sempre. Seguindo passo a passo com crença. Nem a peste nem a fome podem derrota-lo. E a vitória consiste em superá-las. Agora e sempre.

Vejamos agora a produção de Dirceu: “Tudo passa na vida, só não passa a lembrança daquilo que passou/ esse refrão antigo me chegou quando passei ali naquela praça/ que foi palco sinistro da desgraça/ que a Carlos Pena Filho vitimou. / Na memória do tempo ele ficou como fica nos pisos a argamassa.”

“O azul brilha no céu diariamente/ no poeta do azul eternamente/ há de permanecer o á mesmo brilho/ para lembrá-lo em forma de elegia/ penso que o mesmo se diria/ dos poemas de Carlos Pena Filho.”

Observe-se que, embora conservador, Dirceu foi além e evitou as rimas fáceis – em ar ou em ão – para dar ao soneto uma visão maior e uma criação reinventada – e por isso mesmo renovadora – tão forte quanto o personagem: o grande poeta do azul.

* Escritor e jornalista

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