A caixa e seus guardados

Marly Mota
Escritora

Publicação: 29/04/2017 03:00

A tia Flora nos seus verdes anos de sinhazinha, ninguém a imaginava uma solteirona. Irmã do meu pai, ficara muito gorda, apegara-se às sobrinhas ensinando paciente a bordar os pontos atrás e casa de abelhas, sentada no alpendre da casa grande do Engenho Independência, onde chegavam as caixas de madeira com os vinhos encomendados pelo meu avô. De uma delas, apossei-me para acomodar os meus guardados. Ávida em não partilhar com ninguém: fitas, contas de colares desfeitos, linhas, agulhas e bordados. Com o tempo fui acomodando papéis, convites e algumas cartas de amor, quando adolescente, escondidas de minha mãe, já desbotadas de espera.

Com o decorrer do tempo, após o meu casamento com o poeta Mauro Mota, a mesma caixa guardou e guarda como um bálsamo o melhor dos nossos tempos juntos. Acompanhei-o em Nazaré da Mata, cidade que embalou o menino recifense e o seu mundo mágico que nos trouxe o verde e o viço dos seus poemas de iniciação. É bom lembrá-lo na sua produtividade literária, em atividades de administrador, na sua militância de professor, do intenso trabalho jornalístico, muitos anos dedicados ao Diário de Pernambuco, ao lado do mestre Aníbal Fernandes, nosso amigo, e sua mulher a pintora Fédora Rego Monteiro. Participei com Mauro às viagens ao Crato, Zona do Cariri, que compreende outros municípios do Ceará. O Juazeiro do padre Cícero foi cenário de um dos mais agitados capítulos políticos do nordeste no roteiro do Cariri (Notas e Reportagens), onde deixou registrado no Arquivo Público Estadual, Recife 1952.

Nos anos sessenta e setenta Aurélio Buarque de Holanda, o dicionarista, vindo de Maceió chegava ao Recife e pelo telefone se anunciava. Gostava de nossa casa da Rua Bento de Loyola. Antes deixava a bagagem no hotel e vinha para o almoço, peixada ao molho de coco, feito com capricho por Maria José. Os três empregados da família, Mauro apelidara com nomes de pedras preciosas: Maria José, de Esmeralda, Hamilton, de Topázio e Rosa de Safira. Por indicação de Mauro Mota, o jardineiro colocara placas azuis com os nomes dos nossos filhos, nos quatro cantos do jardim. Aurélio gostava da Praça Tereza Alexandrina, com sombras da goiabeira e balanços de rede, onde depois do almoço ficava nos cochilos, recomendando a Esmeralda, não deixar ninguém incomodar o sono do doutor. Ao voltar Aurélio já fora da rede, Mauro perguntava: Esmeralda, o doutor roncou? Roncou não senhor, mas peidou muito, os dois caíram na gargalhada.

Voltando da nossa viagem ao Cariri, passando por Campina Grande, na madrugada por Itabaiana, com a praça e o jardim público desertos, os personagens extintos tocam profundamente o poeta que escreve uma sentimental e emocionante saudade. Escreve o poeta: “pequenos e esquivos diálogos familiares e sinto o coração do meu pai e de minha mãe pulsando no meu peito, sei que eles se conheceram e se amaram aqui e que não passariam indiferentes pelo caminho que os juntou para a eternidade. Parece que vou encontrá-los daqui a pouco. Sou transeunte antecipado. Que irei dizer ao jovem Promotor Público da comarca, recém-chegado da Faculdade do Recife e a sua noiva ainda colegial? Direi que não existo além do nada e do mistério, mas eles me chamam e que, pouco depois serei uma criança inquieta nos seus braços (...). Decididamente não estarei aqui com o meu pai e minha mãe. O sono deles é tão profundo que é inútil que pise forte e fale alto na quieta madrugada de Itabaiana.”.

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