Segredos de uma boa conversa

Fanuel Melo Paes Barreto
Professor de Língua Portuguesa e Linguística/Unicap

Publicação: 19/04/2017 03:00

Para muita gente, nada mais agradável do que uma boa conversa com os amigos. A sensação de relaxamento que se experimenta em tais ocasiões contrasta com a pressão característica de outras, as reuniões de trabalho, por exemplo. O “bate-papo” está para a comunicação verbal assim como, digamos, o “bate-bola” está para a prática esportiva, os dois termos sugerem liberação dos rigores das regras e convenções.  Contudo, durante a segunda metade do século passado, estudiosos começaram a investigar esse aparente “laisser-aller” do jogo conversacional, tentando esclarecer os segredos de seu funcionamento. E descobriram coisas interessantes.

Em primeiro lugar, a própria estrutura da conversação. Foi o sociólogo americano Harvey Sacks (1935-1975) quem iniciou a busca pela depreensão de uma ordem na condução dos encontros conversacionais, caracterizando o mecanismo dos turnos de fala – ou seja, o princípio do fala-um-de-cada-vez. Em sua análise, Sacks e colaboradores perceberam quão precisa é a organização da fala entre os interlocutores. Um exemplo, bem simples: o fluxo da conversação se estrutura normalmente em pares de turnos, como pergunta-resposta, pedido-aceitação/recusa etc. Em muitos desses pares, o segundo turno tem uma opção preferencial e outra não preferencial: no caso do pedido, a opção preferencial é a aceitação. Quando recusa o pedido, ou seja, faz a opção não preferencial, o interlocutor assinala o fato colocando no início de seu turno expressões como “Infelizmente,...”, “Ah, que pena!...” E, assim, expressões que estudamos na gramática, como advérbios e interjeições, ganham um valor específico na conversação, como marcas interacionais.

Um segundo aspecto tem a ver com o modo de se compreender a mensagem no discurso conversacional. Indagado sobre a competência de Pedro em Matemática, o professor da matéria responde: “Ele tem uma boa caligrafia...” Uma interpretação provável para a resposta seria a de que Pedro não é lá muito competente em Matemática; contudo, não é isso o que as palavras do professor dizem expressamente. Como justificar tal interpretação? O filósofo inglês Paul Grice (1913-1988) procurou esclarecer situações como essa, propondo que interpretações do tipo aqui considerado resultam de inferências baseadas em uma regra geral da conversação, o Princípio da Cooperação, segundo o qual os participantes se esforçam para preservar a adequação do que é dito ao propósito e à direção da conversa. Isso explicaria, em parte, porque uma resposta à primeira vista descabida pode ser tomada como perfeitamente adequada à pergunta feita.

Quando consideramos mais de perto a nossa conversa de cada dia, podemos ser igualmente surpreendidos pelo fascínio que a linguagem vem despertando ao longo de séculos de reflexão sobre o comportamento humano. “Não precisamos”, disse o linguista Dwight Bolinger, “viajar ao exterior ou ao passado para descobrir os fatos da linguagem. Eles estão todos ao nosso redor, em nossa escrita e conversação diárias...”

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