O bordado dos alunos nas sombras da criação

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 17/04/2017 03:00

Sei que pode parecer vaidade. Apenas vaidade. Mas não é bem assim. Estou orgulhoso. Mais do que vaidoso, orgulhoso. Tudo isso por causa da antologia O BORDADO DAS SOMBRAS, reunindo contos de alunos da Oficina de Criação Literária que ministro no Centro Cultural no Espinheiro. O título é uma homenagem que resolveram me prestar tendo como modelo o início da minha novela As Sementes do Sol, assim:” A madrugada é o bordado das sombras; e, dentro das sombras, os pensamentos; como o sabor no segredo da fruta”.

Liderado por Paulo Cantarelli e Andrea Ferraz o grupo – que frequenta a turma da tarde – se empenhou em estudar, vivamente, as técnicas que examinamos durante meses a exemplo do discurso indireto livro, do olhar dos personagens, monólogos e solilóquios até a montagem – que é outra técnica – de textos de qualidades. Não de textos bonitos, mas de textos bem escritos. Aliás, escrever bem é diferente de escrever bonito.

Às  vezes, e em circunstanciais especiais, escrever corretamente, segundo a gramática, não significa escrever bem; é correto, verdade, é bonito, sem dúvida, é certo mas pode não corresponde ao tom narrativo. Lembramos, neste momento, os casos do Modernismo e do Regionalismo. Em ambos os casos, uma frase, sobretudo no coloquial, deve ser iniciada pelo pronome oblíquo átono, que a gramática condena veementemente. O Modernismo admite por questões estéticas, para dar leveza e beleza ao coloquial, enquanto o Regionalismo usa por razões documentais, para permitir o registro da fala social, porque assim é que se fala. Questão polêmica, muito polêmica, não tenho dúvida. Mas assim, o diálogo na prosa ficcional brasileira ganhou plasticidade.

O escritor Gabriel Garcia Marquez admitiu, em entrevista ao autor do livro O Cheiro da Goiaba, que usava poucos dilálogos nos seus romances porque a língua espanhola escrita tinha pouca plasticidade e dificultava a fala dos personagens. Os movimentos culturais brasileiros, por motivos diferentes, possibilitaram o enriquecimento linguístico e, por isso, avançamos na estética ficcional.

A questão é esta: não se pode escrever errado gramaticalmente só por transgressão, é preciso ter motivos estéticos bem claros. Lembro o início do conto “Pomba Enamorada”, de Lygia Fagundes Telles, onde ocorre um discurso indireto livre, com o registro das vozes do narrador e da personagem: “ Encontrou-a pela primeira vez quando foi coroada princesa no Baile da Primavera e assim que o coração deu aquele tranco e o olho ficou cheiro d`água pensou: acho que vou amar ele para sempre”. As expressões “o coração deu aquele tranco” e “vou amar ele” pertencem à personagem e não ao narrador. Coreto seria amá-lo, mas não corresponde ao tom da narrativa. Isso chama-se escrever bem, conforme a necessidade estética e não de acordo com a gramática. O que não significa dizer que a gramática deve ser desrespeitada. São coisas diferentes.

Tudo isso está no meu livro OS Segredos da Ficção que volta às livrarias no próximo mês. Mas também pode ser encontrado na antologia que estes alunos estão publicando em homenagem a este professor que se empenha em indicar os melhores caminhos da criação literária.

Participam da antologia: Andrea Ferraz, Paulo Cantarelli, Matheus Araújo, Giulian Rodrigues, Cecita Rodrigues e Ademilson Costa.

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