O pré-escolar e o desenvolvimento nacional

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 15/04/2017 03:00

A PNAD de 2015 traz estatísticas sobre a frequência das crianças em ensino pré-escolar. Os dados mostram que 64% de nossas crianças com até 4 anos de idade não frequentavam pré-escolar naquele ano. Em Pernambuco esse número subia para 68%, assim como no Nordeste. Ou seja, o acesso ao pré-escolar ainda tem fortes restrições no país, apesar de vir subindo ultimamente. Para se ter uma ideia, esses números de não acesso eram 74% para o Brasil e Pernambuco e 75% para o Nordeste em 2007. Vale salientar que o acesso ao pré-escolar em Pernambuco vem subindo menos do que no resto do Nordeste e no Brasil, já que se tornou o de maior não acesso em 2015 entre os três universos apresentados.

As consequências de tal baixo acesso ao pré-escolar para o desenvolvimento econômico são bem maiores do que a maioria da população às vezes cogita. Crianças formam sua capacidade cognitiva principalmente até os cinco anos de idade. Até esse momento eles têm que ser estimulados em seu raciocínio lógico para que tenham mais potencial de desenvolvimento de sofisticação lógica, que é o que popularmente associa-se com a inteligência. Então a pré-escola atua na fase mais importante da formação da inteligência. Infelizmente, o subdesenvolvimento tem na pouca capacidade de raciocínio de sua população um dos maiores obstáculos a sua superação. Excessos de erros em processos produtivos, decisões pouco eficientes e o baixo nível de micro-inovações são algumas das consequências de uma base lógica deficiente da população, que o subdesenvolvimento produz. Daí a importância de atuação estimuladora do raciocínio das novas gerações para corrigir o mais rápido possível esse limitante. A pré-escola é um importante instrumento para fazer isso.

A pré-escola tem também um papel fundamental para a emancipação feminina. A sua difusão normalmente contribui fortemente para que jovens mães possam retornar/entrar no mercado de trabalho, evitando que uma temporada longa ausente deixe-as em condições competitivas deficientes quando se compara com os homens da mesma idade e formação. Ou seja, a maior difusão do pré-escolar é uma contribuição fundamental para a maior igualdade de gêneros no país. Estudos acadêmicos rigorosos mostram que boa parte das desigualdades de renda entre homens e mulheres em nossa sociedade deve-se à perda de experiência em tempos que as mulheres param de trabalhar quando se tornam mães e pela sua menor dedicação ao trabalho por causa das restrições que a maternidade gera no seu empenho, principalmente quanto a horas dedicadas ao trabalho.

Como a população brasileira tem um baixo nível de escolaridade, elevar a inclusão de crianças na pré-escola pode expô-las proporcionalmente mais a adultos com formação intelectual melhor e com isso acelerar o desenvolvimento econômico através de maior rapidez no crescimento do capital humano entre gerações. Mas para isso, as pessoas responsáveis pela pré-escola têm que ter nível intelectual melhor do que os pais ou responsáveis pela proteção às crianças quando não estão na pré-escola. Ou seja, para que o impacto do crescimento do acesso à pré-escola seja mais eficaz para o desenvolvimento, não basta expandir o acesso a ela, tem que se assegurar a qualidade dos profissionais que interagem com as crianças nelas. A reforma da Previdência pode contribuir para que os governos possam dedicar mais recursos para esse tipo de prioridade, e menos para pagar gordas aposentadorias no setor público.

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