EDITORIAL » A mãe e o pai das bombas

Publicação: 15/04/2017 03:00

Existe o fato e existe o simbolismo do fato. Os EUA têm tropas militares no Afeganistão desde 2001, quando invadiram o país sob o argumento de combater o terrorismo. Nessa luta, apoiados por outros países ocidentais, que para lá também enviaram forças militares, conseguiram derrubar com a ditadura do regime talibã. Nos últimos anos o combate acirrou-se contra rebeldes do chamado Estado Islâmico (EI), que se servem da topografia do país para escapar dos ataques. Quinta-feira os EUA bombardearam áreas nas quais os rebeldes estariam escondidos em cavernas e túneis subterrâneos. Utilizaram aquela que é conhecida como “A mãe de todas as bombas”, a MOAB GBU-43, pesando 10 toneladas, o mais poderoso artefato não nuclear norte-americano. A onda de choque desse tipo de bomba tem um alcance bem maior que as demais, com capacidade para causar mais danos na área atingida e também, consequentemente, aumentar o número de vítimas.

Que os EUA ataquem rebeldes no Afeganistão não há novidade; é um fato comum desde 2001. A novidade está no uso inédito da “mãe de todas as bombas” - e aí está o simbolismo do fato. Não estamos diante de mais um bombardeio, e sim de um episódio que representa uma assustadora escalada nas tensões dos conflitos.  Essa bomba foi inicialmente testada em 2003; tinha o uso previsto para a Guerra do Iraque, mas nunca chegou a ser utilizada. Nem no governo inteiro de Bush (Republicano) nem no de Obama (Democratas).

Foi agora no de Donald Trump, que está há menos de 100 dias no poder… Semana passada ele já havia autorizado o bombardeio de uma base militar síria, sobre a qual foram lançados 59 mísseis. Também na semana passada ele ordenou o envio de navios de guerra para a península coreana, gesto que foi visto como sinal de ameaça à Coreia do Norte.

Não estamos no terreno da simples retórica, em que um dirigente diz uma coisa, outro replica e a diplomacia de ambos tenta atenuar eventual belicosidade das palavras. O terreno em que as tensões aqui citadas ocorrem, é o do “apertar o botão e começar o bombardeio”.  Assim como os EUA têm a “mãe de todas as bombas”, MOAB, a Rússia (que apoia o governo sírio e condenou o ataque à base militar de lá) tem o que a imprensa especializada chama de “o pai de todas as bombas” - o FOAB, explosivo de potência destrutiva semelhante ao norte-americano.

No apelido e na potência desses artefatos, no radicalismo dos presidentes dos países citados, no extremismo de fundamentalistas religiosos - na mistura de todas essas características há um simbolismo preocupante sobre a segurança do planeta.

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