EDITORIAL » Sob o signo da incerteza, ainda

Publicação: 13/04/2017 03:00

As investigações, com o devido direito de defesa, vão apurar a responsabilidade dos políticos relacionados na agora já célebre “lista de Fachin” (que não foi oficialmente divulgada, mas cujo conteúdo vazou e neste momento todos já a conhecem).

Essa é uma parte da questão.

Outra parte, motivo de nossa análise, é: o que pode acontecer daí por diante, como consequência? Do ponto de vista de tendência política, uma das conjecturas que se impõe é que cresce o espaço para o surgimento de candidatos que se dizem “apolíticos”, que centram seu discurso no conteúdo de tentar mostrar-se “diferente de tudo que está aí”.

Na medida em que a elite política brasileira - de um polo a outro da disputa pelo poder - é alcançada pelas denúncias e delações de supostos atos de corrupção, automaticamente cava-se o buraco para que nele caia o protagonismo que essa elite tem exercido até agora no país. Evidentemente que um processo de tamanha envergadura não acontece da noite para o dia, mas ele permite o surgimento de fissuras por onde podem avançar nomes de candidatos aparentemente diferentes de “tudo que está aí” - inclusive com possibilidade de chegar à Presidência da República. Não seria a primeira vez em nossa história, nem mesmo se considerarmos apenas a história recente… “Quando os partidos se enfraquecem e há uma percepção de que o sistema está corrompido, podem se fortalecer atores individuais que se dizem independentes do sistema”, observa, coberta de razão, a cientista política Flávia Biroli, da UnB, em entrevista à BBC.

Avançando no terreno das conjecturas, esse tipo de tendência, se tornada realidade, carrega dois riscos. O primeiro é o de que, conforme avaliação de Biroli, “surfando na ideia da apolítica, [esses candidatos] possam trazer para a política soluções não democráticas”. O segundo, acrescentamos nós, é o de esses “novos protagonistas” não conseguirem reunir em torno de si as condições necessárias para a governabilidade em um país tão cheio de tensões e contradições como o Brasil. Essas duas características, se conjugadas, são receita de crise na certa. Mesmo que se verifique apenas uma delas. Já é suficiente para abrir as portas a crises.

É inegável que nesse processo de investigação que sacode o país há muitos aspectos positivos, capazes de eliminar distorções do nosso sistema político. Mas também é inegável que, subjacente a tudo isso, abre-se um caminho de incertezas que ninguém sabe onde vai chegar.

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