EDITORIAL » O Brasil é um Big Brother

Publicação: 12/04/2017 03:00

O episódio da expulsão do participante Marcos Harter do popular programa Big Brother Brasil, da Rede Globo, e aquilo que tem sido discutido em torno do assunto é uma amostra do que se vive no país em função do combate ao machismo. Marcos foi desclassificado após duas delegadas ligadas à defesa da mulher no Rio de Janeiro abrirem boletim de ocorrência para apurar agressões verbal e física do médico e concorrente do reality show. Depois da saída dele, duas evidências sobre o perfil machista do brasileiro - entranhado em homens e mulheres - se sobressaíram. Uma delas está no perfil de Marcos, um campeão de votos. Outra, na forma como a namorada, Emilly Araújo, reagiu à ação da polícia que determinou a saída e intimação dele para depoimento.

Mesmo depois da divulgação de uma foto de Marcos com dedo em riste diante do rosto de Emilly, de deixá-la acuada como se viu em imagens publicadas em vídeos, da polêmica sobre o aperto que teria dado no braço da jovem de 20 anos, o participante foi ovacionado pelo voto do público e se salvou de ser retirado da casa do Big Brother no último domingo, quando 77% do público votante preferiu deixá-lo confinado e excluiu outra concorrente. Milhões de brasileiros. O resultado se deu após inúmeras brigas e de Emilly repetir frases como “Marcos, tá doendo” e “Para de me apertar! Para de me machucar”. O que ficou do placar: a prova da permissividade do país.

A frase de Emilly ao externar sua contrariedade pela saída do namorado também é balizadora cultural. Por meio dela, Emilly não se reconhece como vítima de agressão, como parte de um relacionamento abusivo. O comportamento, dizem especialistas, é comum entre mulheres vítimas até mesmo de armas de fogo ou armas brancas. Muitas mulheres querem crer que a agressão foi um momento pontual do amado. Negam, absorvem culpa e querem poupar agressores. Por agressores, entende-se ser aqueles que praticam agressões físicas, verbais e psicológicas. Começa-se, por vezes, pela psicológica. Um grito, uma ameaça de um tapa, um empurrão, chutes...

Há de chegar o dia em que o Brasil achará todo tipo de agressão à mulher estranho. Por hoje, temos a imagem que é refletida no Big Brother Brasil.

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