O uivo que mudou a ordem do mundo ficou esquecido

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 10/04/2017 03:00

Há 60 anos a ordem comportamental do mundo mudou inteiramente. As pessoas jogaram fora o conservadorismo, passaram a viver com os seus próprios valores, consagraram seus códigos de linguagem, gírias e costumes, conheceram, enfim, o direito à liberdade absoluta, sem ter que explicar nada a ninguém. Mas para que isso se estabelecesse foi preciso que jovens norte-americanos se reunissem num grupo heterogêneo e, às vezes confuso, para tornar-se porta-voz das dores universais naquele momento histórico de guerra fria, de bombas no Vietnam, de imposições ditatoriais na América Latina, de lutas raciais nos Estados Unidos.

Este grupo começou a atuar quase espontaneamente, sobretudo através da literatura com o lançamento de Uivo – Kaddish e outros poemas – ,de Allan Ginsberg, em 1956, e de On The Road, de Jack Keouak. Muitos foram perseguidos e presos, sem esquecer os nomes de Burroughs, Corso, Ferlinhgthetti e Snyder, que formariam o que chamou mais tarde de Generetion Beat, porovocando uma rebelião em todo mundo.

Pois bem, a eclosão deste movimento se deu justamente nesse emblemático 1956 com a divulgação definitiva de Uivo, quebrando toda a concepção da poesia tradicional, mas instalando a epopeia do mundo moderno, desde suas primeiras palavras: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos  pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus...” E inventando um novo mundo,  criando maiores possibilidades para os jovens, a ponto de ser os primeiros criadores das comunidades de Hippies em todo mundo, mesmo quando dominados pelo vício, pelas drogas, pelo álcool, pelo sexo, mas, ainda assim, alterando os comportamentos, criando novas sensibilidades musicais.

Mesmo assim, depois do lançamento do Uivo,  o mundo não seria mais o mesmo. Esta data, tão decisiva para a humanidade está sendo comemorada ou lembrada em toda humanidade, mas no Brasil quase não há registros. Somente o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, percebeu o desastre e, semana passada dedicou uma página ao movimentou que tornou a humanidade mais leve e mais saudável, apesar dos seus equívocos. A educação formal brasileira o esquece completamente e os jovens das nossas escolas jamais ouviram falar no Uivo ou em On the Road. Não é a questão, em absoluto, de ser contra ou a favor. Mas o conhecimento elementar da história moderna e contemporânea. É preciso estar atento e forte”, para repetir Caetano Veloso, na canção consagrada, e fruto da influência da poesia de Ginsberg ou da prosa de Kerouac.

Não é simplesmente negando ou esquecendo que o movimento deixará de esquecer. Todos nós somos filhos dele e, com certeza, todos nós aprendemos com ele. Podemos não concordar, sem dúvida, mas será sempre um enorme erro não colocá-lo nas salas de aula e nos livros escolares. Basta perguntar o que nós somos hoje, como nos vestimos, o que comemos, o que lemos e o que vemos.

Pode-se apagar uma estrela com um tiro, como dizia Hemingway, mas não podemos esquecer a história. Até porque se esquecemos podemos cometer grandes e decisivos erros. Ginsberg e Kerouac estarão sempre em nossas vidas. Com obras literárias fundamentais. Falem com seus filhos, exliquem aos seus filhos. 

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