Uma estratégia para Pernambuco

Marcos Roberto Dubeux
Acionista e diretor executivo da companhia Cone S/A

Publicação: 10/04/2017 03:00

O passo inicial de uma estratégia de desenvolvimento é identificar o que deu certo. Para tanto, vale notar como certas regiões passaram a ser mundialmente reconhecidas por uma indústria ou atividade. Como Hollywood com o cinema, o Vale do Silício com tecnologia, os relógios suíços, Cannes e seus eventos, Detroit com automóveis. Estudiosos dão a isso o nome de cluster, que é a reunião concentrada de empresas com características semelhantes, articuladas para atuar com eficiência e competitividade. O mais antigo e talvez primeiro cluster foi o da arte renascentista, em Florença, na Itália, que uniu as melhores matérias-primas e escolas, o capital do Banco dos Médici e, assim, atraiu talentos como Michelangelo, Leonardo da Vinci, entre outros.

Há pelo menos seis anos, venho estudando o tema dos clusters, em particular os logísticos. Visitei alguns países com esse propósito. Em Boston, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde o termo “logística” foi cunhado e evoluiu a partir da disciplina de transportes, conheci os integrantes do departamento que gerou o livro Logistics Clusters. É inspirador ver o que a parceria entre aquela academia e a região de Zaragoza, no nordeste da Espanha, foi capaz de produzir em benefícios econômicos e sociais transformando a região numa referência logística mundial.

Nessas viagens, constatei in loco o ensinamento da turma do MIT, segundo o qual o setor de logística é menos suscetível à substituição externa por causa da tecnologia e da economia nos custos de transporte e distribuição. Além de poder substituir empregos obsoletos, como aconteceu na Califórnia há alguns anos. Sem depender de uma indústria específica, os clusters logísticos são menos vulneráveis a um setor exclusivo. Nos Estados Unidos, os investidores só falam de estar “on the right side of the internet”, ou seja, de estar do lado certo do crescimento do varejo de e-commerce que, neste caso, é a logística.

Pernambuco tem tradição em planos norteadores do desenvolvimento. Tradição que remonta ao Padre Lebret, o profeta de Suape, em 1955. Os governos que se sucederam  desde então contribuíram para o avanço do Complexo, mas não conseguiram ir muito além da ideia fundadora de Lebret. Mesmo que, no ano 2000, outro importante porto tenha sido concebido: o Porto Digital. Imagino como deve ser difícil, em meio à grave crise atual, direcionar esforços para uma estratégia de desenvolvimento. Os problemas cotidianos consomem demais. É desanimadora a dependência de repasses federais, e a capacidade restrita de investimentos. Por isso, Pernambuco carece, hoje, de uma nova estratégia que turbine suas vocações naturais visando gerar prosperidade econômica de longo prazo.

Assistimos, meses atrás, à mobilização em torno da instalação do Hub da LATAM no Nordeste. Foi uma iniciativa da companhia, que ainda não se concretizou. Mas, se o Estado estiver posicionado com uma estratégia de ser o Hub logístico do Brasil, inclusive com o envolvimento da sociedade, essa lógica tem tudo para ser invertida. Pode-se buscar empresas proativamente e consolidar o cluster logístico atraindo empreendedores, investimentos, novas empresas, capital intelectual e interesse político. E se, por exemplo, uma Fedex ou uma DHL mostrassem interesse em montar um Hub aqui, o cluster logístico iria se consolidar, pois uma empresa chama outras.

E quando se tem projeto, os resultados chegam. No mês passado, participei de reuniões na Universidade de Northwestern, em Chicago. Fiquei surpreso com um número. O plano estratégico da universidade visou captar R$ 12 bilhões em 5 anos. A um ano da meta, atingiram 84% do montante com recursos privados. Excelente resultado para uma universidade de 15.000 estudantes. Tenho certeza de que se pode fazer muito para um Estado com o potencial de Pernambuco.

Cada cluster que prospera em um ponto da Terra é um exemplo a ser visto com atenção. Pernambuco precisa de um foco – de uma estratégia focada no cluster que melhor define a vocação de localização estratégica que possuímos: a logística com inovação, alavancando o potencial dos portos de Suape e o Digital, no Recife. O desenvolvimento econômico é a mais eficaz política social. E podemos nos tornar um vale da logística inovadora que seja referência em toda a América Latina.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.