Ameaças ao ambiente aberto da Internet

Maurício Rands
Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

Publicação: 10/04/2017 03:00

Nunca a informação foi tão democratizada. Graças às maravilhas do ‘cyberspace’. À parte o risco de todos virarmos corcundas-conectados, podemos viver e tomar decisões baseadas em maior conhecimento dos fatos. Até mesmo das nossas doenças. O mundo digital traz um potencial de empoderamento nunca antes tão generalizado. Mas, como tudo que é humano, precisamos estar atentos à degeneração no uso das redes sociais. O clima de profunda divisão da sociedade brasileira não parece ser nosso privilégio. A eleição de Trump beneficiou-se da difusão dos ‘fatos alternativos’. Para alguns, até mesmo com o emprego de ferramentas de espia cibernética. Na Europa as mídias sociais também têm impulsionado o crescimento de partidos da xenofobia e do ódio. Na linguagem coloquial da internet já foi cunhado um termo (‘troll’) para o internauta vezeiro em postagens agressivas, invasivas, provocativas e destrutivas do bom debate nas comunidades ‘on line’. Para não falar do uso das mídias sociais para a promoção do terrorismo, da propaganda extremista e da cultura do ódio. Recente estudo do Pew Research Center (http://www.pewinternet.org/2017/03/29/the-future-of-free-speech-trolls-anonymity-and-fake-news-online/#) analisa os riscos de que o comportamento incivil e manipulativo prejudique a própria democracia e a liberdade de expressão. Cogita que o ambiente aberto da Internet pode vir a ser dividido em espaços patrulhados e isolados como anteparo à ação invasiva dos ‘trollers’. O estudo discute possíveis limitações ao anonimato no ambiente ‘on line’, o que ampliaria o espaço para que governos e corporações utilizassem ferramentas de monitoramento de cidadãos e da liberdade de expressão capazes de moldar o debate social. Esses desdobramentos podem significar uma autêntica contradição com a própria ideia da rede mundial aberta.

O ambiente tóxico tem preocupado empresas mundiais como AT&T, General Motors, Wallmart, PesiCo, Verizon, Johnson & Johnson, Hyundai e Argos.  Elas têm estado atentas ao desgaste de suas marcas em decorrência da publicação de conteúdos falsos e eivados de ódio ao lado de suas marcas nas plataformas Google e Youtube. Algumas chegaram recentemente a boicotar as duas plataformas, deixando de nelas publicar anúncios.

As plataformas usam algoritmos para selecionar o que aparece na tela quando o internauta digita as palavras-chaves de suas buscas. Quanto mais clicks, melhor a posição. E, portanto, a chance de que aquele conteúdo seja acessado. O problema é que as pessoas tendem a retransmitir ou comentar os assuntos que fogem ao trivial. As mensagens falsas e cheias de ódio têm grande potencial para viralizar. Essa maior participação das pessoas nas redes aumenta os lucros das plataformas sociais. De consequência, as empresas que as exploram têm pouco incentivo para tentar modular o comportamento incivil.

Um outro problema é o efeito circular ou de compartimentalização. Os algoritmos conseguem identificar os assuntos que são de interesse de um dado usuário a partir do seu histórico de navegação. Com isso, duas pessoas seguidoras de um mesmo emissor de conteúdo podem não receber as mesmas mensagens. Elas recebem mensagens circunscritas ao limitado universo de suas crenças e interesses mais óbvios. E, em grupos como ‘whatsApp’, dialogam com os que pensam da mesma maneira. Que o digam aqueles que são excluídos ou se auto-excluem desses grupos quando discordam do senso comum da maioria dos seus componentes.

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