Passeio introspectivo: casa-grande de Taépe ao engenho Passassunga

Marly Mota
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 08/04/2017 03:00

Afago lembranças refazendo velhos caminhos em passadas férias, revividas em época Quaresmal. Eu menina, entre outras primas, fomos levadas por meu pai à Fazenda Cachoeira do Taépe, propriedade do Coronel José Francisco Travassos de Arruda. O belo casarão, um desafio à arquitetura da região pela originalidade. Escadarias e balaustradas em madeira esculpida levavam ao espaçoso andar de cima. Grande salão dividido em duas casas, uma para o verão outra para o inverno. Esse fora o mundo do Coronel José Francisco, dele fizera o seu cenáculo e a razão de ali continuar a sua velhice.

Nada escapava aos nossos olhos curiosos até que encontramos o retrato do nosso trisavô, em vetusta moldura, nas estudadas poses da época: fraque, colarinho duro, corrente de ouro atravessando o colete, presa ao Patek Phillip. A casa de Cachoeira de Taépe foi tombada pelo Patrimônio Histórico Artístico Nacional. Ao longo do tempo, a Fazenda Taépe foi morada de familiares, destacando-se Gerônimo Cavalcanti, adepto de cavalgadas, derrubadas de bois e vaquejadas que eram realizadas na propriedade e entrou no calendário das festas campestres da cidade de Surubim.

O carro, vencendo léguas para nossa alegria, subia por caminhos contornados de plantas nativas entrelaçadas ao tom vermelho dos Flamboaiãs até a acolhedora casa-grande de Passassunga, do Dr. Manuel Tertuliano Travassos de Arruda, que ali morou desde bacharel. Ocupou a Promotoria Pública, exerceu o cargo de Deputado Provincial e Secretário do Império. Ao deixar a magistratura dedicou-se à cultura canavieira.

Em Passassunga, grandes recepções, almoços em mesa conventual, serviço de louça Limoges, peças e cristais de René Lalique. No Pátio, em mastro altaneiro tremulava a bandeira com a imagem de São Sebastião. Meu pai adolescente tocava trombone, fazendo parte da banda de música composta dos filhos do Dr. Arruda, com a regência do maestro e compositor Zumba. Uniformizados com os seus instrumentos, retratos foram tirados nas escadarias da casa-grande. O meu bisavô casou duas vezes. Com Flora Gonçalves Lins, irmã do Coronel Joaquim Gonçalves, chefe político de Bom Jardim. Tio bisavô do ex-governador de Pernambuco, escritor e amigo Gustavo Krause. O meu avô, Capitão Heliodoro Gonçalves de Arruda, casado com minha querida avó Maria Amélia do Rêgo Cavalcanti, prima carnal do Major Joaquim do Rêgo Cavalcanti, avô do jurista, escritor biógrafo de Fernando Pessoa, José Paulo Cavalcanti. Concorda, com o nosso parentesco?

Lembro-me do meu pai contando o episódio ocorrido no Engenho Passassunga, do qual fora vítima o Dr. Manuel Tertuliano Travassos de Arruda. Na região, andaram roubando cavalos, O capataz vinha procurando os ladrões, prendendo-os, lá mesmo na estribaria.  Ajudado pelo vaqueiro, com o ferro de ferrar o gado, ferraram os ladrões na cara. Tudo à revelia do Dr. Arruda. Como réu e advogado de si mesmo, foi se defender no Supremo Tribunal do Rio de Janeiro, sendo carregado nos braços do povo, com o plenário quase vindo abaixo, pela brilhante defesa que fez de si mesmo.  A casa-grande de Passassunga foi tombada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco. O Dr. Arruda, faleceu aos 74 anos, deixando 21 filhos e 47 netos, Bisnetos, quantos? Eu, Marly Mota entre eles.

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