EDITORIAL » Linhas vermelhas

Publicação: 08/04/2017 03:00

A investida americana à base aérea síria de Ash Sha´irat permite diferentes leituras. No âmbito interno, Donald Trump marca nítida diferença em relação ao antecessor. Obama estabeleceu uma linha vermelha ao governo de Assad: os Estados Unidos não tolerariam a recorrência à guerra química, proscrita pelo direito internacional depois da Primeira Guerra Mundial.

Em 2013, ataque químico deixou mais de 1.400 mortos. Washington não cumpriu a ameaça. Agora fica claro que haverá consequências no caso de ultrapassagem do marco estabelecido. Não só. Países hostis aos EUA como a Coreia do Norte podem se sentir ameaçados por um presidente temperamental que desrespeita a ordem internacional.

Em menos de três meses de mandato, Donald Trump dá uma guinada no envolvimento da Casa Branca no conflito que dura seis anos e soma mais de 500 mil cadáveres. Desde 2011, quando a guerra civil começou com os protestos da Primavera Árabe, a ação dos EUA se concentrava no combate aos extremistas do Estado Islâmico, na Síria e no Iraque. A história, agora, muda de enredo.

É a primeira vez que a maior potência do planeta age militarmente contra o regime de Damasco. O foco é o governo. Como Barack Obama, Donald Trump defende a tese de que Assad precisa ser apeado do poder. Mas o caminho escolhido por ambos diverge. Para o ex-presidente, a saída observaria uma transição diplomática. Para o atual mandatário, uma diretriz militar.

Trump afirmou que o ataque foi pontual. O lançamento de mais de 50 mísseis Tomahawk a partir de destróieres ancorados no Mar Mediterrâneo seria resposta ao horror provocado pelo uso da mais cruel e covarde arma contra a população de Khan Sheikhoun na terça-feira. O saldo: 86 mortos, entre os quais 30 crianças, e dezenas de feridos. É uma violência, sem dúvida. E talvez uma precipitação.

A investida surpreendeu o mundo. Com ela, Trump também ultrapassou a linha vermelha. De um lado, não há provas de que o ataque tenha a digital do governo de Bashar al-Assad. Há indícios, como havia no Iraque quando George W. Bush ordenou a invasão do país. Confirmada a inexistência dos artefatos, o mal estava feito. De outro lado, Donald Trump rompe com a ordem internacional.

Para atacar outro país, impõe-se autorização do Conselho de Segurança da ONU. Sem o aval, a insegurança ganharia espaço num mundo por si só inseguro. Qualquer governante poderia se sentir no direito de lançar bombas ou mísseis contra outra nação seja por que razão for. O cenário aponta para consequência preocupante. A corrida armamentista ganharia asas.

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