EDITORIAL » Equador rumo ao 'terceiro turno'

Publicação: 05/04/2017 03:00

O candidato esquerdista Lenín Moreno venceu o segundo turno das eleições presidenciais no Equador com pouco mais de 51% dos votos. O candidato de oposição Guilhermo Lasso teve 48,84%. Pelos percentuais dá para notar que o eleitorado equatoriano praticamente dividiu-se ao meio na escolha do seu presidente.  E a tendência histórica na América Latina do candidato que “perde por pouco” é qual? Resposta: dizer que houve fraude. Pedir recontagem de votos. Foi exatamente o que fez o sr. Guilherme Lasso. Ele quer impugnar a eleição, afirmando que ela não foi “limpa”.

Lá vai o Equador, então, rumo a um terceiro turno informal.  Quando isso acontece, exige-se do presidente eleito habilidade política e boa gestão para reverter uma possível onda contrária capaz de desembocar em crise política, quando não institucional. O processo ocorrido no Brasil, que culminou no afastamento de Dilma Rousseff menos de dois anos depois de ela ser reeleita, é um bom exemplo disso.

O candidato que perde não tem poder de mando - não nomeia ministros, não lhe cabe fazer alianças para governar, não tem autoridade para vetar ou sancionar projetos. Mas se tiver apoio no Congresso pode tornar-se um duro obstáculo para que o seu oponente possa aprovar as medidas que julga necessárias. Se, além da força no Congresso, o candidato derrotado tiver apoio de instituições poderosas e conseguir mobilizar setores relevantes da sociedade civil, ele torna-se uma espécie de “presidente sem pasta” - não governa mas não deixa governar.  Nesse cenário não necessariamente é ele, o derrotado, quem por si só ergue os obstáculos que o vitorioso não consegue transpor.  As forças que estão em torno dele fazem isso.

No caso do Equador, o eleito tem apoio do atual presidente, Rafael Correa, que está há 10 anos no poder.  Será, portanto, um governo de continuidade. Na América Latina, como de resto em grande parte do mundo, a situação econômica não está no mesmo patamar favorável em que esteve durante a maior parte do mandato de Correa. Aí entra outro componente capaz de estimular o “terceiro turno” - pelo menos uma parte da população tem razões para estar insatisfeita com a situação. Acrescente-se o componente de que entre os eleitores cujo candidato perdeu há uma parte radicalizada que precisa apenas de um fiapo de estímulo para contestar a vitória do outro. O candidato Guilherme Lasso já estendeu o fiapo, ao dizer que a eleição foi fraudada.

Tomara que estejamos enganados. Mas há razões para conjecturar que o Equador viverá um período agitado nos próximos meses.

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