Kadaré confirma estilo épico em tambores da chuva

Raimundo Carrero*
* Escritor e jornalista

Publicação: 03/04/2017 03:00

Os perfis biográficos de Ismail Kadaré dão conta de que o escritor albanês é um profundo estudioso das tragédias gregas e shakespeariana, de que desconfiei logo na primeira leitura de Abril Despedaçado, o grandioso romance tão próximo da cultura nordestina, e que motivou uma bela adaptação cinematográfica feita por Walter Sales. Impressionou-me grandemente o uso de metáforas para revelar o conflito psicológico do personagem Gjorg nas páginas iniciais de Abril Despedaçado, também adaptando o consagradíssimo monólogo de Hamlet, na peça de Shakespeare, e repetido por vários autores em países heterogêneos

Em “Os Tambores da Chuva’, narrativa que revive o cerco de um castelo na Albânia por tropas turcas que estou lendo agora embora tenha sido publicado pela companhia das Letras faz algum tempo Companhia , confirma o estilo trági9co-épico de Kadaré, com personagens fortes e definitivos, a exemplo de Turnsun Paxá, que vive os combates sangrentos e trágicos, ao lado de um denso conflito psicológico. As visões das montanhas albaneses, por Tursun, são impressionantes, sobretudo no trecho:

“Ele próprio fitara a paisagem longamente. Assemelhavam-se a um pesadelo dos piores. Desses esmagadores, que não deixam você acordar. A terra e as rochas se precipitavam violentamente rumo aos céus, a ponto de aparentarem uma subversão de todas as leis da natureza. Alá devia estar cheio de fel ao criar um país assim, pensara, e pela centésima vez ao longo da marcha, pusera-se a duvidar se sua nomeação para comandante-em-chefe daquela campanha adviera da interferência de amigos e inimigos. Ao longo do trajeto, notara que a paisagem escarpada dava nos nervos dos oficiais. Quando conversavam, referiam-se sempre a planícieis e mal sofreavam a ânsia de vê-las. O exército, em seu vagaroso movimento, passara a carregar, junto com armas e apetrechos, a pesada sombra dos montes. E o pior era que ele nada podia fazer para torna-la mais leve”. Uma visão aterradora, sobretudo com a expressão: “A e as rochas se precipitavam violentamente rumo aos céus.” O que parece confuso e sem qualquer lógica. Mas o narrador procura explicar de imediato: a ponto de aparentarem uma subversão de todas as leis da natureza”.

Aliás, o narrador não se satisfaz mesmo com o que mostra:” Só podia convocar o cronista da campanha e indagar-lhe como haveria de descrever aquelas montanhas em seu relato. O escrivão, tremendo de frio, enunciara muitas frases longas e terríveis, porém, o paxá não as apreciara. Esta é uma técnica habilíssima em que o autor observa o escreveu através do narrador, mas acha insuficiente e convoca outro narrado que aqui ganha o nome de cronista. Mas também o cronista erra no t9m narrativo com frases longas e terríveis. Eis um dos segredos da Ficção. Por nisso, o narrador principal dissera ao outro que tentasse outra vez e na manhã seguinte o cronista, com os olhos avermelhados pela insônia lera a nova descrição. A descrição desta vez agradara ao paxá. Brevíssima aula de oficina de criação literária.

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