Golpe dentro do golpe

Marcelo Santa Cruz
Advogado e militante dos Direitos Humanos

Publicação: 01/04/2017 03:00

1º de abril de 1964, encontrava-me entre os estudantes e trabalhadores que protestavam indignados contra o golpe militar que derrubara o governo legitimamente eleito pelo povo brasileiro. O presidente da República João Goulart e o governador Miguel Arraes eram depostos pela força das armas. Pernambuco, sempre altivo, levantava-se em manifestação solidária ao governador Arraes. O Palácio das Princesas foi sitiado. O governador resistiu e foi preso pelos golpistas. A manifestação cívica seguia pela Avenida Dantas Barreto quando, por volta das 16h, o Exército reagiu à bala e fez tombar os primeiros mártires da ditadura: Jonas José de Albuquerque Barros, 17 anos, estudante secundarista do legendário Colégio Estadual de Pernambuco (CEP) e Ivan da Rocha Aguiar, 20 anos que acabara de ingressar na faculdade de engenharia. Tempos difíceis. O país passou a ser governado pelos militares, cujo sustentáculo jurídico eram os atos institucionais, que sobrepunham a Constituição Federal. Sindicatos submetidos à intervenção, inúmeras prisões efetivadas em nome “da ordem e da paz social”, mandatos de parlamentares outorgados pela vontade popular foram cassados, estudantes e professores expulsos e proibidos de estudar e ensinar, punidos pelo Decreto Lei 477/69. Iniciava a resistência à ditadura que objetivava o retorno ao Estado Democrático de Direito. No começo a articulação da Resistência ficava restrita aos familiares e alguns poucos amigos dos que tinham seus direitos violados. Posteriormente, alastrou-se a indignação por amplos setores da sociedade, professores, estudantes, trabalhadores, profissionais liberais, intelectuais e artistas. Nesta época, a imprensa estava silenciada pela rigorosa censura. Surge a impressa alternativa. Entre os periódicos destacam-se o Pasquim, o jornal Movimento e o Em Tempo, entre outros. Em 13 de dezembro de 1968, para conter o avanço da luta popular contra a politica econômica e social da ditadura que sacrificava a classe trabalhadora e reprimia os estudantes, foi editado o Ato Institucional nº 5 (AI 5), que significou o golpe dentro do golpe. O Congresso foi fechado, ocorreram novas cassações de mandatos parlamentares, intensificaram as ocorrências de prisões ilegais, torturas, exílios, o Habeas Corpus suprimido do ordenamento jurídico. No entanto, surge o lado mais perverso da repressão - “os desaparecidos políticos”. Cidadãos e cidadãs foram sequestrados pelas forças de segurança, assassinados sob vis torturas. Seus corpos e as circunstâncias de suas mortes nunca foram reveladas; são mortes sem sepultura. Há quem diga que a historia não se repete. Como as águas de um rio que, quando passam, nunca mais retornam. Refiro-me ao golpe que resultou no impeachment de Dilma Rousseff, sem que houvesse cometido qualquer crime. Agora, com a antirreforma da Previdência Social e da Trabalhista, ocorre mais uma vez, o golpe dentro do golpe. Ou melhor, fica mais claro que o golpe não era contra a presidenta, mais contra a classe trabalhadora.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.