O dom da ternura

Múcio Aguiar
Presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa, mestre em Ciências da Religião e ex-superintendente federal do Iphan

Publicação: 28/03/2017 03:00

No último dia 25, morreu o arcebispo emérito da Paraíba, dom Marcelo Carvalheira. Natural do Recife, Carvalheira foi um dos grandes colaboradores de dom Helder Camara. Ordenado em Pernambuco, logo foi designado reitor do Seminário de Olinda, quando convidou o escritor Ariano Suassuna para lecionar, inaugurando uma nova geração de sacerdotes.

Ao lado de dom Helder lutou pelo fim do regime militar, o que causou-lhe prisão e tortura. Carvalheira fez parte de uma geração de bispo que tiveram papel fundamental para redemocratização do Brasil da década de 1960, a exemplo dos cardeais Evaristo Arns, Louchaide, Luciano Mendes de Almeida e dos bispos dom José Vicente Távora, dom Severino Barbosa de Aguiar e dom Otávio Barbosa de Aguiar, além do próprio Camara. Sua voz mansa e coração doce lhe conferiu o título de dom da ternura. Sempre verdadeiro e autentico, esteve nas fileiras das lutas pela igualdade e pelo fim da desventura humana. Com o lema episcopal “Evangelizar” percorreu os subúrbios da miséria buscando levar paz e esperança – dignidade a todos independentemente do credo.

A ternura e coragem lhe garantiu a eleição de vice-presidência nacional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, função que ocupou até o ano de 2004, ano em que em razão da idade lhe fez cumprir os preceitos canônicos, entregando sua carta de renúncia à cátedra da Paraíba (João Pessoa), onde esteve por cerca de dez anos. Contudo, foi na diocese de Guarabira, onde esteve por 26 anos, que dom Marcelo expedia com mais fervor suas cartas e homilias em favor dos mais oprimidos. Naquela circunscrição ele formou novos sacerdotes – e pregou que só o amor promove a salvação.

Tive oportunidade de conviver, pouco, com esse grande líder religioso. Aos fundos da Catedral de João Pessoa ele nos recebia para conversas cujo teor era a espiritualidade da pobreza e de que a Igreja necessitava (necessita) de homens de verdadeira fé. Ele pregava que a virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Lembrava-nos das três virtudes teológicas: da fé, da esperança e da caridade. E aqui não posso deixar de lembrar meu irmão de monastério, hoje secular, padre Marcelo Arruda, que nas aulas no mosteiro duelávamos em correntes filosóficas da contemporaneidade.

Beneditino como eu, dom Marcelo ao se aposentar fez sua peregrinação ao Mosteiro de São Bento de Olinda, e com o nome de irmão José viveu na contemplação. Juntos tivemos a oportunidade de ciceronear o cardeal Paul Poupard, então presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, do Vaticano, que em visita oficial buscava aprofundar a necessidade do diálogo da cultura com a fé, além da permanente preservação dos bens históricos da Igreja, como um bem universal.

Ao partir para a eternidade, dom Marcelo Pinto Carvalheira não deixa riquezas materiais, nos deixa um exemplo de que é possível ser feliz pregando e exercitando a caridade, o respeito e o amor ao próximo.

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