Guardem as cinzas - Esta é a novela de Andrea Ferraz

Raimundo Carrero *
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Publicação: 27/03/2017 03:00

Premiada pela Academia Pernambucana de Letras com o romance A sutileza do sangue - editora Mondrongo-Salvador, considerado o melhor romance do ano-2015, a escritora Andrea Ferraz está de volta às livrarias com a novela Guardem as cinzas – editora Confraria dos Ventos-Rio – o que qualifica ainda mais a sua obra. Trata-se de um texto brilhante, destacando o uso correto do discurso indireto livre, com várias vozes circulando no interior da narrativa, quando o narrador faz com que os personagens da novela trágica , tensa e convincente, falem e interfiram a cada movimento, ao estabelecer ecos e sons múltiplos no tecido ficcional. Dessa forma, Guardem as cinzas cria vínculos muito fortes com Ana-Não,  do espanhol Agustin Gomez D'Arco e com Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo, inserindo-se na grande tradição do “realismo mágico” latino-americano. E, mesmo sem cópia ou imitação, aproxima-se do brasileiro Adonias Filho, sobretudo pela linguagem forte e pontuação precisa, além de Ismail Kadaré, o celebrado autor de Abril despedaçado, na mesma linhagem das metáforas e do discurso indireto livre. Chamaria a atenção ainda para a ligação dramática com Confissões de Nat Turner, do norte-americano William Styron, um clássico da literatura dos Estados Unidos. Não estou falando sequer em influência, mas em parentesco literário até porque Andrea não é leitora, seguramente, de Adonias ou Styron.

Aluna da oficina de criação literária que coordeno no meu Centro Cultural do Espinheiro a autora é muito disciplinada, estudando e exercitando as  tarefas diárias, trabalhando incessantemente. E, mais ainda, escrevendo a sua obra, de forma a avançar e amadurecer na conquista de novos caminhos, com a humildade de aprendiz, disposta a descobrir novas técnicas narrativas. Aliás, uma oficina exige o máximo de humildade; se o aluno não está disposto a ler, escutar e exercitar não vai aprender nada; se tem princípios e conhecimentos irremovíveis, então errou de porta. O mesmo acontece com o coordenador da oficina, não pode nem deve impor técnicas, apresenta-as, indica leituras, exercita. Desse diálogo nasce o escritor que se está projetando. Encher o peito para se achar escritor demais é o caminho extremamente equivocado do aluno. Este é o resultado de muitos fracassos. Fica-se circulando em torno dos próprios defeitos, repete-os, repete-os, repete-os e não enriquece a experiência criadora. Não vai adiante. Abandone os saltos altos e calce as sandálias da humildade. Ou fique em casa e se alimente de suas desilusões. O  que mais me entristece é a arrogância.

A novela de Andrea conta a trágica história de Antonio, Paizinha, filhos, familiares e parentes, com universalidade e encantamento, sem perder  o vínculo e a cor do sertão pernambucano, de onde Andrea é originária, e onde forjou a sua admirável visão do mundo. Uma novela na linhagem das tragédias gregas e universais, para ser lida com admiração e respeito. O principal prêmio de um aluno de oficina é criação de uma obra de qualidade que resulte na admiração e do respeito dos críticos e dos leitores.

* Escritor e jornalista

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