A recuperação econômica

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 25/03/2017 03:00

Há já consenso entre os economistas brasileiros de que a Economia nacional já aterrissou. Ou seja, qualquer contração que por ventura se encontre nas estatísticas dos próximos meses deve ser marginal. Não vamos mais encolher de forma significativa. Diante de tal fato, as questões que se colocam no momento são: (i) como será a recuperação e (ii) quais os impulsos que a propulsionará. A maioria acredita que essa recuperação deverá ser lenta, pois os desajustes estruturais da economia ainda são grandes. Além disso, o ritmo está ainda sujeito à aprovação das reformas: a da previdência, a trabalhista e algumas mudanças tributárias são urgentes. A regulamentação da terceirização já foi um primeiro passo, mas ainda pouco para o que se precisa no país. Terá que vir junta com a reforma trabalhista que está no Congresso, que, por sua vez, já é muito tímida para as reais necessidades do país. A previdenciária está perdendo capacidade de impacto pelas mudanças anunciadas (exclusão de funcionários públicos estaduais e municipais). A tributária é a mais difícil por causa dos fortes interesses conflitantes envolvidos. Ou seja, as reformas poderão não causar grande impacto para acelerar o crescimento.

Os dados mostram também que a inadimplência ainda está alta, tanto entre famílias como entre empresas, apesar de o endividamento das últimas ter caído razoavelmente nos últimos meses. Isso significa que o crédito poderá ser a fonte de impulso para a demanda, mas deverá nesse caso ser mais direcionado para os investimentos, pois o endividamento das famílias ainda está alto. Isso significa que o ganho de credibilidade no futuro da economia deverá ser um dos componentes importantes na retomada. A demanda externa, por sua vez, poderia ser uma fonte importante de impulso para a retomada, mas a valorização cambial recente pode significar que qualquer início de retomada gerará maior valorização e com isso comprometer as exportações. Ou seja, há fragilidades nesse potencial componente de demanda para acelerar a retomada.

Por consequência do provável papel dos investimentos na retomada, a aprovação das reformas deverá ter um papel importante nela e o impacto da Operação Lava-Jato na credibilidade das instituições continuará sendo uma ameaça relevante à recuperação. Obviamente a atuação desastrada da Polícia Federal na Operação Carne Fraca vai ter custo elevado para a população, pois deverá atrasar ainda mais a nossa recuperação, tanto pelo seu impacto na credibilidade das instituições como no ritmo de crescimento das exportações brasileiras.

Além das reformas, seria importante o Banco Central promover um aumento da liquidez na economia, talvez com redução do depósito compulsório e penalização das reservas excedentes dos bancos. Entretanto, é difícil esperar tal postura quando os líderes que comandam a política monetária no país são oriundos do setor bancário e deverão voltar para suas posições anteriores após deixarem o Banco Central. Esse seria o impulso para elevar o crédito e por tal seria o complemento das reformas para que a retomada não seja muito lenta.

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