A famosa quem?

Doris Gibson
Jornalista

Publicação: 25/03/2017 03:00

As milenares cidades europeias têm portas. Por exemplo: eu morei na Cidade Universitária Internacional de Paris, que fica entre a Porta de Chantilly e a Porta de Orleans; são acessos da e para a periferia.

Sacrossanta periferia! Por ela – e dela – vivem  produtores culturais e astros da ribalta menos votados, aqui como lá; são os famosos projetos sociais que levam cultura para o povo, com financiamento público.

Participei de um desses projetos no Teatro di Porta Portesi, em Roma. O espetáculo, escrito e dirigido por Gianfranco Carcano, reunia belíssimos poemas de autores romanos contemporâneos e chamava-se “Roma Ogi”.

Gianfranco era uma figuraça; a todos que acabava de conhecer – ou aos já conhecidos – fazia a mesma pergunta: “Hai visto Armarcord?” Todos respondiam “Si” (quem no mundo, não teria visto o último Fellini?); ao que ele treplicava: “Io ero Il paroco”. Apesar de Armarcord, no dialeto de Rimini (rincão natal de Fellini), significar “eu me lembro”, juro que não lembro do pároco, por mais que me esforce. E comecei a desconfiar que não era a única quando, junto com todo o elenco de “Roma Ogi”, fomos intimados a acompanhá-lo à entrega do “Nastro d’Argento” (Fita de Prata, o Oscar do cinema italiano) de melhor coadjuvante, no Palazzo di Cinema para, na hora em que ele fosse chamado ao palco, batermos muita palma.   

E assim foi feito. Comparecemos ao Palazzo todos juntos, recebemos brindes no hall feérico e, ao descermos a monumental escadaria de acesso à plateia, eis que milhares de paparazzi danaram-se a espocar seus flashes  em nossa direção; gracejei com os colegas: “mas eu nem avisei que vinha...”

Ao meu lado esquerdo, estava a razão da histeria paparazzi: uma jovem mulher morena, que não me chegava ao ombro; risonha, simpática: meu Deus, quem era? Não havia ninguém entre mim e ela, de modo que pude olhar bem, de olhos bem abertos: se pelo menos ela não tivesse trocado de marido naquela semana, como viria a saber depois, eu a teria identificado.

Esperei que fosse chamada ao palco, mas tal não aconteceu; o seu acompanhante, sim: foi o produtor mais premiado da noite, só rivalizando com a maior celebridade ausente: Federico Fellini, premiadíssimo, justamente por Armarcord.

Terminou a festa e eu não tive coragem de perguntar a ninguém quem era famosa, a qual não cessou nem por um instante de ser assediada pelos paparazzi. Mas daria o meu braço (no qual ela praticamente se escorou,  resistindo ao bombardeio de flashes) para saber.     

Restou-me pular da cama no domingo seguinte e correr até a banca de revista mais próxima para, naquelas fotos espalhafatosas que ocupam quase toda a primeira página de todos os jornais, deparar-me com uma lasca do meu braço esquerdo, ao lado do Casal 20 da noite anterior: Claudia Cardinali e Franco Cristaldi.

Isso mesmo, senhoras e senhores: a musa de “Vagas Estrelas da Ursa Maior”, uma de nossas “ídolas” do Cinema de Arte, pessoalmente, é ir-re-co-nhe-cí-vel!

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