EDITORIAL » Cultura da grosseria prejudica todos

Publicação: 25/03/2017 03:00

“O que aquele moleque conhece de política?”, perguntou ontem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, referindo-se ao procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa que investiga o esquema de corrupção da Petrobras.  Lula fez a indagação durante discurso em São Paulo, no encerramento do seminário “O que a Lava-Jato tem feito pelo Brasil”, organizado pelo PT.  A fala completa do ex-presidente foi esta: “Fomos criados para mudar a história deste país e para agir corretamente. Quem comete erro, paga pelo erro que cometeu. A instituição é muito forte. E aquele Dallagnol sugerir que o PT foi criado para ser uma organização criminosa… O que aquele moleque conhece de política? Ele nem sabe como se monta um governo. Não tem a menor noção”.

A acusação do procurador mencionada por Lula aconteceu em 14 de setembro do ano passado, quando durante polêmica apresentação (aquela do PowerPoint) Dallagnol disse, sem mostrar provas, que Lula foi o “comandante máximo do esquema de corrupção” na Petrobras.  O ex-presidente hoje é réu em cinco processos, três dos quais provenientes das investigações da Lava-Jato.

Não é sobre investigações, acusações e Lava-Jato que queremos falar, e sim sobre a elevação do tom nas falas dos personagens desse momento — já estamos na fase da grosseria pura e simples.  Quarta-feira, em um duro discurso, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, criticou o ministro Gilmar Mendes, do STF, e referiu-se a discurso dele no dia anterior como “uma disenteria verbal”.

Em outra época estaríamos pasmos. Um ex-presidente trata um procurador da República como “moleque”, o procurador-geral da República alude a ministro do Supremo como autor de “uma disenteria verbal”… Pior que não são exemplos isolados. Em fevereiro o senador Romero Jucá (PMDB-RR)  reagiu à proposta de restringir o foro privilegiado dos políticos defendendo uma regra única para todos: “Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”.  Também não é algo que venha das últimas semanas; trata-se de um fenômeno que se arrasta há mais tempo (talvez seu ponto inicial seja o dos xingamentos com palavras de baixo calão contra a então presidente Dilma Rousseff, em 2015).  Não são participantes de uma rede social agredindo uns aos outros (o que já seria grave) — são autoridades, ocupantes e ex-ocupantes de cargos importantes na República.

Quando a grosseria se impõe, entramos no terreno pantanoso da falta de respeito. Quando se perde o respeito, a credibilidade é afetada. Não só a das pessoas, mas também a das instituições que elas representam.

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