EDITORIAL » A criança e o Nordeste

Publicação: 22/03/2017 03:00

O pior cenário para crianças e adolescentes brasileiros viverem é o do Nordeste. É neste território onde se considera mais comum o trabalho infantil, seja no ambiente urbano ou rural. Aqui está a maior concentração de pobres, cidadãos com renda per capita mensal igual ou inferior a um salário mínimo e o maior número de crianças e adolescentes do país. Por consequência, estima-se que 60% das crianças da região crescem em situação de baixa renda.

Entre causas e consequências, o panorama aflitivo abrange outros indicadores: no Brasil, 18,4% dos homicídios envolvem brasileiros com idade entre 5 anos e 17 anos de idade. Grande parte desses crimes relaciona-se a revólveres e afins. O Nordeste, de novo, destaca-se negativamente porque concentra o maior percentual de homicídios de crianças e jovens por armas de fogo, superando a proporção nacional em 5,4%. São informações reveladas pelo “Cenário da Infância e Adolescência – 2017”, documento lançado ontem pela Fundação Abrinq. A Abrinq é uma respeitada organização sem fins lucrativos que promove a defesa dos direitos de crianças e adolescentes e que faz um balizamento sobre avanços e retrocessos no país.

Os dados divulgados a partir de análise da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio enfatizam o relevante crescimento do trabalho infantil entre 2014 e 2015 - algo em torno de 11% de um total de meninos e meninas quando se fala de crianças com idade entre 5 e 9 anos. Significa que cerca de 8,5 mil crianças a mais estão nas ruas ocupando um posto no mercado formal e informal. Trata-se de algo que se configura uma contrariedade à lei brasileira, que só permite o trabalho a partir de 14 anos e como aprendiz. Diga-se a mais porque, totalizando crianças de 5 anos aos 17 anos, o universo dos que trabalham chega a 2,6 milhões em todo o Brasil. A tendência de aumento é contrária à que vinha se delineando entre 2005 e 2013, quando se computava baixas.

O Nordeste, como foi dito, está no topo das regiões onde há mais trabalho infantil. Não é um dado isolado. Sabendo-se da conjuntura geral oferecida a crianças e adolescentes, somando a crise econômica do país, entende-se que todas as revelações feitas pela Abrinq são, na verdade, uma só. Por ter quadro tão dramático, é o Nordeste que mais precisa de atenção no que diz respeito à criança e adolescente no Brasil.

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