Somos um

Gilvandro Coelho
Advogado e professor titular da Unicap (licenciado)

Publicação: 21/03/2017 03:00

“Mãe e Mestra”, como a definiu João XXIII, em memorável encíclica (Mater et Magistra), a Igreja propõe este ano, como tema da Campanha da Fraternidade, que se estende por todo o tempo da Quaresma: “Biomas brasileiros e a defesa da vida”. Através dela, pede a todos os homens e mulheres que reaprendam a amar, perdoar e servir uns aos outros e a cuidar da casa comum que é a Terra. A mensagem demonstra que somos um, Terra e humanidade, o que foi, aliás, observado pelo cientista russo Isaac Asimov, que teve o privilégio de observar do espaço, do Sputinik, que inaugurou a era espacial. Disse ele: “a Terra e a humanidade formam uma única entidade”. Amar sem egoísmos e tendo como mestre o Cristo, que nos ensinou com autoridade que a plenitude da lei reside no amor. Por amar ao Pai, amou aos irmãos e por eles deu a própria vida, deixando-se crucificar por falta não cometida. Iniciada na chamada Quarta-Feira de Cinzas, a Campanha tem por lema “Cultivar e guardar a criação” (Gênesis, 2,15), apontando que é preciso cuidar da criação de modo especial dos biomas brasileiros, dom de Deus, e promover relação fraterna com a vida e a cultura dos povos à luz do Evangelho. A oração oficial do evento enfatiza que Deus criou o universo com sabedoria e o entregou em nossas mãos frágeis para dele cuidarmos com carinho e amor. Por isso devemos pedir a Ele para nos ajudar a sermos responsáveis e zelosos pela Casa Comum. Em verdade, a Campanha é, antes de tudo, um convite à transformação interior, sem a qual as injustiças e opressões continuarão a impedir a existência de uma sociedade verdadeiramente cristã, ou seja, uma sociedade em que todos se considerem irmãos porque filhos do mesmo Pai. Mais uma vez, estamos diante do problema da essência do amor. Novamente este impõe à nossa consideração duas indagações que certamente ajudarão a responder às perguntas que não querem calar: por que até hoje não fomos capazes de resolver as questões sociais, no âmbito da justiça e da paz, com apoio nos direitos humanos? Por que muitos ainda procuram soluções antissociais e anti-humanas levando em conta o fator puramente econômico, no ódio, na cadeia internacional do terrorismo? As respostas têm sido dadas pelo Papa Francisco a todo instante. Estas distorções ocorrem porque muitos – e principalmente vários dos que governam – não praticam o Evangelho do Amor, sua lei, necessidade, fecundidade e atualidade. Não aprenderam ou esquecem que o amor verdadeiro é ato consciente e voluntário dirigido para o bem. Recebe ajuda da natureza, mas não se confunde com o amor instintivo e sensitivo. Faz-se ato humano mediante dupla operação da vontade: eleição e força. Sem essa compreensão, tudo pode ser justificado pela inteligência humana, inclusive destruir rios, poluir mares e contaminar alimentos em busca de mais e mais ganhos.

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