A técnica requintada do paranaense Dalton Trevisan

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicação: 20/03/2017 03:00

Não se trata de lançamento recente, mas “Virgem Louca, Loucos Beijos”, livro de contos de Dalton Trevisan, editora Record, Rio de Janeiro, exige, por mas do que reclama, estudo de sua requintada técnica, embora já proclamada e exaltada por críticos brasileiros de alto padrão. Trevisan usa com incrível habilidade os cortes narrativo e psicológico para conduzir a história de João e Mirinha – uma variante exemplar de João e Maria, personagens que frequentam quase sempre o universo ficcional do escritor paranaense, sem esquecer a elipse, sobretudo de tempo. Além um jogo fascinante da “simulação”- que consiste em fingir contar uma história quando na verdade conta outra, cujo maior exemplo no Brasil é “A causa secreta”, de Machado de Assis - , que produz efeito muito forte no leitor, sobretudo aquele leitor iniciante ou tradicional. “Virgem Louca, loucos beijos” parece contar a história de um velho sedutor esperto, mas, na verdade, conta a história de uma mocinha esperta, preparada para dar golpes em velhos idiotas.

Sem uma introdução, que possa colocar o leitor na história e, sobretudo, sem qualquer explicação, o conto começa com uma fala do personagem e uma cena de sedução: “- minha mulher não me compreende, mais nada entre nós. Faz da minha vida um inferno. Só de pena dos filhos não me separo”. Vendo bem a fala é, ao mesmo, a intervenção do narrador que informa o leitor sobre a história e define o caráter do personagem. “O  primeiro beijo roubado”. Assim, nesta intervenção possível do narrador – ou no monólogo interior do personagem, que é muito subjetivo – o tempo passou, aí uma elipse de tempo – e, depois de muita sedução, João , O personagem consegue o primeiro beijo roubado. Seguido ainda de um novo discurso sedutor: “-Tão carente de amor. Estou perdido por você. Teu futuro é ao meu lado.  Aqui na firma. Não atrás de um balcão.” Novamente, na fala de João está contida a narração e o personagem, agora desesperado, começa a fazer propostas concretas. No texto, de narrativa indireta, a história avança. Não se fala mais em lamentações, do velho que seduz mentindo sobre o casamento e a vida em casal.

Depois do primeiro beijo roubado, ele agora propõe uma sociedade na empresa: “Teu futuro é ao meu lado.  Aqui na firma. Não atrás de um balcão.” Além disso todos sabem que a contenção frasal – ou contenção das palavras, que a crítica chama de precisão cirúrgica – tem sido uma técnica muito usada por Trevisan, que elimina não só adjetivos, advérbios e pronomes possessivos, poupados somente quando criam proposital ambiguidade – mas a palavra que pode esclarecer excessivamente uma frase, um ambiente , uma situação narrativa ou um personagem. Ou que expõe muito a narrativa.

Em seguida informação narrativa que expõe a passagem do tempo e a imaginada sedução  de João: “No segundo beijo com a mão direita no pequeno. De tanta pena – (não sofre demais com a mulher?) Esta voz pertence ao monólogo da moça. – A menina começa a gostar de João.”

Devemos esclarecer que a fala do personagem está recheada de narrativas. Os cortes narrativos e psicológicos percorrem todo o texto criando uma espécie de abismo no leitor que somente a partir da segunda parte começa a perceber que lê, ao mesmo tempo, duas histórias, sobretudo no caráter ambíguo do texto. É um requinte que marca, profundamente, a obra de Dalton Trevisan.

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