Nóbrega para sempre...

Pedro Rubens
Reitor da Unicap

Publicação: 18/03/2017 03:00

Neste bicentenário da Revolução Pernambucana, celebramos os 100 da consagração da flâmula dos revolucionários como a atual bandeira de Pernambuco e, igualmente, em 2017, recordamos o centenário de fundação do Colégio Nóbrega. Expulsos duas vezes de Pernambuco, os jesuítas têm uma história de implantações de escolas no Estado, como em nenhum outro lugar do Brasil: depois do Real Colégio de Jesus de Pernambuco (Olinda, prédio do atual Seminário) e do colégio do Recife (ao lado da Igreja do Espírito Santo, no Centro), o Nóbrega representou um marco importante na missão jesuíta, sobretudo após a supressão da Ordem em Portugal e no restante do mundo. Podemos acrescentar ainda a criação do Colégio de Aplicação Padre Abranches e o Liceu de Artes e Ofícios, ambos ligados à Unicap. Revela-se, nessa insistência, uma dupla estratégia: geopolítica enquanto Recife, a capital das rebeliões libertárias, situa-se no coração do Nordeste e, a estratégia da educação como evangelização, mediante um serviço à sociedade. No apogeu dessa missão educativa, deu-se um novo pioneirismo à altura do povo pernambucano: em 1943, o colégio deu origem à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Manoel da Nóbrega. E, na sequência, em 1951, a jovem faculdade torna-se a primeira universidade católica do Norte e Nordeste do Brasil. Neste simbólico mês de março, além de recordar a importância do saudoso colégio Nóbrega, nós jesuítas queremos dar graças a Deus e ao povo pernambucano por esse importante centenário, e reafirmar o nosso compromisso com uma educação de qualidade visando à excelência humana na formação de homens e mulheres. A Católica continua atualizando essa missão, sempre atenta aos sinais dos tempos, às demandas da sociedade e aos apelos da igreja, com uma visão profética, humanística e esperançosa do mundo.
A notícia do encerramento das atividades do Nóbrega em 31 de dezembro de 2006 foi difícil para os jesuítas e triste para as famílias de alunos, professores e funcionários, de tantas gerações ao longo de seus 89 anos. No entanto, é preciso que se diga que, em memória à verdade e em honra da bela história do Nóbrega, a crise dos anos 1990 atingiu muitas instituições educativas, sobretudo da área central do Recife. Por mais de quinze anos, houve uma série de tentativas de guardar o colégio, mobilizando a sociedade civil e suscitando gestos importantes com apoio da Unicap, de outros colégios jesuítas e de instituições parceiras. Infelizmente, no entanto, o Nóbrega, com capacidade para até 3 mil alunos, encerrou suas atividades com apenas 644 alunos, uma estrutura carente de renovação e outras tantas dificuldades. Para evitar a venda ou a alienação do patrimônio, a Província dos jesuítas cedeu em comodado as edificações à Unicap. Como reitor recém-empossado, propus transformarmos o Nóbrega em um campo de parcerias: “fecha-se uma porta, abrem-se várias janelas...” E, de fato, a Católica não apenas recebeu os prédios em comodato, mas trabalha, desde então, para honrar essa história, buscando, criativamente, reinventar os espaços, fiel à vocação originária. Dentre as diversas iniciativas, destaco as seguintes ações como sinal de nosso compromisso:
- com a transferência do Liceu de Artes e Ofícios, escola da Unicap conveniada com a Secretaria de Educação do Estado, da Praça da República para o prédio do antigo colégio, nasce o “Liceu Nóbrega”, unindo duas tradições e permitindo a ampliação de 800 para 1.200 alunos, gratuitamente, com resultados crescentes de qualidade e inserção no mundo universitário;
- a primeira igreja consagrada à Nossa Senhora de Fátima no mundo não apenas ampliou suas atividades, mas foi elevada à categoria de Santuário Arquidiocesano;
- a Fundação Fé e Alegria do Brasil, movimento internacional de educação popular segundo a pedagogia jesuíta, chega à terra de Paulo Freire para compor o complexo educacional Nóbrega;
- um acordo foi feito com o Iphan para a restauração do Palácio da Soledade, onde funciona também Museu de Arqueologia da Unicap;
- um convênio foi feito com a Prefeitura do Recife para um projeto de educação, funcionando no antigo prédio do primário;
- todo o acervo fotográfico do colégio Nóbrega está sendo higienizado e digitalizado pela nossa biblioteca (disponível no site);
- e, apesar das dificuldades, estamos concluindo todo o restauro do mais antigo prédio do colégio.
Por tudo isso, a celebração da Eucaristia, neste sábado, 18 de março, é uma verdadeira ação de graças, fazendo a memória de um passado saudoso, reafirmando o nosso compromisso com a missão educativa neste conturbado presente do Brasil e apostando na esperança que nos move rumo ao futuro.
“Nóbrega para sempre”, como se diz, mas cabe a cada geração reinventar essa intuição originária na perspectiva do futuro, enfrentando os novos desafios e segundo o espírito de cada época.  

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