EDITORIAL » A corrupção chega à mesa

Publicação: 18/03/2017 03:00

A corrupção, disseminada no país, chegou à mesa dos brasileiros. A Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, mostrou que grandes frigoríficos, BRF (Sadia, Perdigão) e JBS (Friboi e Seara), subornaram, pelo menos, 33 fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura para garantir a liberação de produtos deteriorados no mercado interno e para exportação. Carnes bovina e de frango e embutidos (linguiça, mortadela e salsicha) estragados eram maquiados com produtos químicos, inclusive cancerígenos, para enganar o consumidor.
No dia em que a Operação Lava-Jato completou 3 anos, a Carne Fraca mostrou que os esquemas de propina ainda persistem no país, envolvendo grandes grupos empresariais, servidores públicos e partidos políticos (PMDB e PP). Foram mobilizados 1.100 agentes federais para o cumprimento de 309 mandados judiciais, sendo 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão em residências e locais de trabalho. A força-tarefa agiu em Goiás, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e no Distrito Federal.
Trinta e três fiscais agropecuários foram afastados das funções, anunciou o secretário executivo do Ministério da Agricultura, Edmar Novacki. Mas os danos tendem a ser irreversíveis. A saúde dos consumidores foi exposta ao ingerir produtos bovinos e de frango deteriorados. A situação é mais grave ainda diante de um sistema falido de saúde pública, que não consegue atender, minimamente, às demandas dos usuários.
Os prejuízos ganham proporção se considerado que o Brasil é o maior exportador de carnes bovina e de frango do mundo, com consumidores em quase todos os continentes, com destaque para China, Irã Rússia e Chile, entre os principais compradores. As empresas envolvidas detêm 60% do mercado brasileiro. Embora o Ministério da Agricultura tenha destacado que as fraudes ocorreram em apenas três indústrias — BRF de Mineiros (GO) e em duas unidades de Pecim, uma em Curitiba e outra em Jaguará (SC) — não explicitou qual é a estratégia para retirar as mercadorias das gôndolas dos supermercados, evitando que o consumidor continue sendo vítima de mais esse golpe.
O conluio entre as grandes empresas, o setor público e políticos, em detrimento dos interesses da sociedade, parece não ter limites no país. Há dois anos, o brasileiro vem sendo vítima do ato criminoso dos grandes frigoríficos. Impossível medir o impacto provocado aos consumidores. Os responsáveis não podem ficar impunes. Os diretores das empresas têm que ser responsabilizados penalmente. Não há que se poupar nenhum deles, ou repassar culpa aos funcionários. Fraudes de tamanha dimensão não ocorrem sem o sinal verde do dono do negócio.

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