A insana ordem vertical

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 17/03/2017 03:00

Nas grandes cidades do país, as gestões municipais tentam adotar medidas para preservar as áreas centrais, históricas, de sorte a manter uma imagem positiva. As intervenções do setor público têm reflexos na conservação de ruas e avenidas, recuperação de pontes, parques, praças e jardins. Assim as cidades ficam mais bonitas, ganham feição moderna, num ritmo que encanta e preocupa, pois se limita a cuidar da aparência, de preservar parte da paisagem - área colonial, bairros tradicionais, que têm beleza e são patrimônio de arte e cultura.

Não há porque negar elogios a tais objetivos com intenção de implantar uma política de ordenamento urbano, com ocupação ordenada do solo, preservação do verde, de áreas históricas dos cursos d’água, e do meio ambiente. Ele vem sendo castigado por construções inadequadas, favelas ou espigões, fato que compromete seriamente o setor de saneamento - esgotos, rios. canais - atinge e polui as nossas praias. É lamentável constatar, pois, que além das ocupações em áreas pobres, inóspitas, aumentam as construções de espigões, de condomínios neomedievais, prometendo “aprazíveis paisagens”.

É bom lembrar que nos anos 60, o poeta Ascenso Ferreira convidava Maria para ir embora: “as panzer divisões de cimento armado estão tomando conta do Recife colonial”. Agora, as divisões avançam assustadoramente sobre outras áreas do Recife, de outras cidades do Norte/Nordeste, do país, com espigões de até 40 andares. Esse quadro é preocupante, pois além da deficiência do sistema de esgotos, de vias de tráfego, não há parques, praças, e os espaços livres vão sendo tragados pelo setor imobiliário. Nessa marcha, em pouco tempo, a maior parte das capitais, poluídas e mal saneadas, as cidades próximas, podem repetir o que já acontece nas metrópoles, pobres de vegetação e sistemas de saneamento.

Daí a tendência de marcha para a periferia, também com ocupação desordenada, sob o comando da ordem vertical. Não é reflexo de progresso, mas uma caminhada no rumo da insensatez, do descompasso entre o urbano e a desordem que anula seu objetivo. As cidades do Norte/Nordeste, Centro Oeste, do Sul e Sudeste, na prática não têm uma legislação limitando o progresso vertical, com definição de áreas e de um patamar a ser respeitado.

Pior: há tolerância para o avanço e as restrições são inúteis diante das pressões do setor imobiliário, da especulação, pois quem manda é a ordem vertical. que não preserva espaços para parques, praças, árvores e jardins. Numa palavra, o Legislativo faz reuniões, discursos sobre a questão ambiental, o Executivo também, mas nenhum poder define normas de ocupação, gabarito, enquanto crescem as lamentações sobre as agressões ao meio ambiente. Não basta, pois, falar de ecologia nas escolas, na televisão, na internet, enquanto cada cidade sacrifica sua paisagem, qualidade de vida, e se limita ao discurso sobre o sistema, que é importante, mas está distante do fundamental.

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