EDITORIAL » Um recado para o mundo

Publicação: 17/03/2017 03:00

As forças democráticas mundiais que defendem a tolerância e a cooperação entre as nações tiveram expressiva vitória com o freio ao nacionalismo e ao populismo imposto pelos holandeses, com a derrota do candidato da extrema-direita no país, o controvertido Geer Wilders. Considerado uma ameaça à estabilidade da União Europeia, caso vencesse as eleições na quarta-feira, Wilders tem como bandeiras a xenofobia e o populismo, sob o manto do nacionalismo, o que colocaria em perigo os avanços conseguidos no continente com a política de integração da UE.

A eleição da Holanda estava na mira de todos os governantes da Europa e do resto do mundo, por ser considerada o primeiro teste do ano para a preservação da União Europeia. Depois da eleição de Donald Trump como presidente dos EUA, no ano passado — uma campanha foi baseada em ataques a imigrantes e a políticas protecionistas — e da decisão do Reino Unido de deixar o bloco continental, a iniciativa conhecida como Brexit, começou a ser colocada em prática. Muitos líderes europeus temiam a ascensão do populismo na Europa com a escolha de Trump e o afastamento do Reino Unido.

Democratas e defensores das liberdades temiam que, com o avanço da extrema-direita na Holanda — um dos países mais desenvolvidos e democráticos do planeta —, a promoção da xenofobia e da antiglobalização se estenderia a outras partes da Europa, contaminando o eleitorado de países-chaves para a preservação da unidade continental, como França e Alemanha. Em abril e maio, a UE passará por mais um teste, quando os franceses decidirão se a ultradireitista Marine Le Pen, da Frente Nacional, conduzirá os destinos de seu país, berço dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.

Em setembro, será a vez dos alemães irem às urnas. Se a Holanda optasse pelo populismo de Wilders, as forças políticas retrógradas da maior potência econômica da Europa ganhariam força e cresceriam com a legenda Alternativa para a Alemanha. Na Itália, a próxima eleição poderia entregar o equilíbrio de poder a partidos hostis ao bloco monetário, tido como culpado pelo fraco desempenho socioeconômico. O próprio Reino Unido, que optou pelo abandono da união continental, pode enfrentar, num futuro próximo, um segundo referendo sobre a independência da Escócia.

As propostas radicais de Wilders — suspender a imigração de países muçulmanos, fechar as mesquitas, banir o Corão, abandonar a União Europeia e o euro, entre outras — provocaram grande mobilização dos holandeses nas eleições parlamentares. A votação teve a maior participação da população desde 1986, com 86% de comparecimento. O perigo representado por um eventual governo populista, nacionalista e xenófobo fez o povo holandês lembrar de suas profundas raízes libertárias e alertou os governantes atuais de que não só a Europa, mas o mundo inteiro, não podem ficar à mercê de extremistas que desprezam os valores humanitários mais caros.

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