Sicrânio: Triumph

Duciran vAN Marsen Farena
Procurador regional da República

Publicação: 16/03/2017 03:00

Sicrânio é aquele camarada que, depois de uma vida desmantelada, na meia-idade, encontrou Jesus. Mas não foi o Jesus manso do evangelho, não, e sim o Jesus intolerante e virulento da extrema-direita. Hoje é um guerreiro da fé na internet, onde peleja contra “os quatro cavaleiros do apocalipse”: o comunismo, o islamismo, o abortismo e o “direito-humanismo”. Ano passado, engajou-se de corpo e alma no impeachment, mas o resultado não lhe entusiasmou verdadeiramente. Claro, qualquer um que não o “demonho”. Mas os traços vampiro-arabescos do Vice nunca inspiraram confiança em Sicrânio, que mesmo assim limitava suas críticas à “indecisão” do novo mandatário, pois temia fragilizá-lo em demasia (postagem de Sicrânio na rede é como sangue de Jesus: tem muito poder). Em seu grupo de fundamentalistas, declarava sentir-se como um  cristão primitivo lançado na arena do Coliseu– cercado de feras, ouvindo os apupos da multidão. Até que um belo dia, postou, “sentiu-se tocado pela mão de Deus”, ouvira a voz do Todo Poderoso: “Filho, não temas, eu estou contigo”. No começo, Sicrânio criticava Trump. Chamava-o de demagogo e fantoche. Mesmo quando Trump sagrou-se candidato republicano, Sicrânio, assim como seu grupo, só passou a torcer por ele por uma única razão: a nomeação de um juiz da Suprema Corte que viesse finalmente a “proibir” o aborto nos Estados Unidos, o que aquele povo deseja com mais fervor do que o Segundo Advento. Sicrânio tinha ainda razões íntimas para não ser muito simpático a Trump. A primeira era um sentimento pouco cristão. O americano parecia ter se safado de suas aventuras financeiras e sexuais muito bem, casado com uma mulher linda, enquanto Sicrânio, de volta à sua ex, ainda carrega uma pesada cruz pelo seu passado.  A segunda, Trump jamais cumpriu o requisito básico de toda conversão pós-juventude: expiação pelo passado pecaminoso, promessa de fidelidade, de respeito aos valores… Sicrânio acreditava, como os demais fanáticos, que tão logo assumisse, Trump maneiraria, mas tinha fé que manteria a promessa do juiz pró-vida. O sinal da graça divina veio quando Trump passou a cumprir fielmente seu programa. Expulsar os impuros da terra prometida!  Já não se via Papa Francisco nem Bolsonaro no Facebook de Sicrânio, só o novo Messias. Tudo que Trump fazia era o cumprimento de artigo do evangelho, todos os críticos aliados do Diabo. Sicrânio leu uns artigos sobre refugiados haitianos e venezuelanos no Brasil, e passou a considerar que a política de Trump tinha total cabimento aqui. Iniciou uma grande campanha de deportação em massa nas redes sociais, enviou para a sempre solícita assessoria de imprensa do Deputado Bolsonaro. Recebeu como resposta o silêncio – e mesmo inesperadas críticas de alguns seguidores. Um citou o Novo Testamento, outro lembrou que o acolhimento desses refugiados era feito pela Pastoral do Migrante. Sicrânio viajou na maionese – isto é, nos fatos alternativos –  dizendo que esta Pastoral não era da Igreja Católica, mas sim de “esquerdistas egressos dos cursilhos da teologia da libertação”; que nem Jesus nem o Papa Francisco aprovam o acolhimento de migrantes ilegais – só do estrangeiro devidamente regularizado. E que cristão não deve ir morar na terra dos outros sem consentimento, isto é, sem papéis. Com os compartilhamentos de sua campanha pouco acima de zero, ela morreu. E Sicrânio, como sempre, foi orar. Orar para que Deus guie a caneta dos juízes americanos, proteja Trump e mande luz a esta terra de botocudos de beiço furado, que ainda precisa de muito para alcançar os níveis de consciência espiritual dos Estados Unidos da América.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.