O despertar das águas

José Carneiro
Juiz e professor

Publicação: 16/03/2017 03:00

Hoje, nestes dias preguiçosos da velhice, o meu melhor e mais agradável passatempo é ler, escrever e dormir. Peço, pois, ao generoso leitor que não repare nisso. Muitas vezes, para satisfazer a nossa vontade, somos levados a castigar quem não tem culpa.

Avistados de longe, lá no morro do Cruzeiro, o poético coqueiral do Sítio de Dona Anita Remígio mostrava que Custódia era li. Naquele serrote, que eu na adolescência o via como o novo Monte Tabor, eu encontrava paz e conforto espiritual. Estive lá por muitas vezes a fim de me transfigurar, isto é, aprimorar o comportamento do meu corpo físico e espiritual.

Custódia sempre foi uma cidade audaciosa, um lugar de destaque. Sempre figurou como um município próspero, de fortes tradições socioeconômicas e carregada de ambições.

Na minha juventude, Custódia despontava como um dos centros mais progressistas do interior. Grande produtor de algodão em rama, contava com duas bolandeiras. Foi pioneira na industrialização do Caroá, com cinco usinas desfibradoras. Tinha uma fábrica de Tanino, substância extraída da casca do Angico, orgulho da Terra, era a única existente no Brasil. Sua feira, uma das mais movimentadas da região, chegava a ser comparada à de Caruaru. E, por fim, a Fonte Sabá, de águas puras e cristalinas, ricas em sais minerais. Afora a fonte, hoje, os demais empreendimentos não existem mais.

Custódia, atualmente, é uma cidade grande, moderna, pacífica e de gente calma e hospitaleira. Vive mais do comércio, sobressaindo a fábrica de doce Tambaú, cujos produtos têm grande aceitação em todo território nacional. A Praça Padre Leão, por sua beleza, chama a atenção de quem a conhece. A Igreja Matriz de São José, bela e original, é um templo religioso que transmite fé e espiritualidade.

A festa de São José, padroeiro da paróquia, e as Santas Missões de Frei Damião de Bozzano, eram os acontecimentos católicos mais expressivos de Custódia, que se transformava num reino de fé e de esperança, com gente e mais gente vindo de longe. Virava a Meca do Moxotó de Pernambuco.

Custódia não para. Está se transformando. Agora, com a transposição das águas do Rio São Francisco, ela vai escrever um dos capítulos mais importantes de sua história. Vai dividir época. Mas, nem só de água nas torneiras vive o homem. E a Terra? Os animais? As plantas? Faz-se de todo necessário o armazenamento de água nos açudes e barragens. Nosso município tem o privilégio de contar com o Rio Moxotó, que abriga dois grandes açudes, o das Marrecas, em Custódia, e o Poço da Cruz, em Ibimirim, o maior açude do estado. Ambos já tiveram os seus dias de glória, com um bom serviço de irrigação, com grande produção de gêneros alimentícios. Marcou época.

Infelizmente, hoje, aqueles reservatórios de água estão desativados. O de Custódia aterrado e o de Ibimirim vazio, por conta da longa estiagem. Isto, sem dúvida, por desídia do poder público.

A seca e os desmatamentos vêm prejudicando o Rio São Francisco, que está em declínio, correndo o risco de sofrer danos imprevisíveis e irreparáveis. Estou com pena do Velho Chico.

Mas, nem tudo está perdido. Paira no ar um halo de esperança.

Esperemos com otimismo o que vem por aí. Sabemos que o país passa por um momento doloroso sob vários aspectos, sobretudo o econômico e o ético, sem precedente na sua história. Mas, mesmo assim, alimentemos o desejo de dias melhores. Lutemos com todas as forças em prol da recuperação dos nossos rios e matas. A grandeza de um povo repousa no trabalho planejado e executado com respeito e entusiasmo. Lutemos. Quem luta está prestes a vencer.

Demos as mãos. Entoemos um hino de louvor aos nossos dois grandes açudes, no sentido de recuperá-los, tornando-os perenes, para que voltem a viver os seus dias de glória, para sempre.

Esqueçamos o passado e lancemos o olhar no futuro, que constrói e renova.

Que a transposição das águas do Rio São Francisco seja uma realidade histórica.

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