Recife Manhã de Sol

Ítalo Rocha Leitão
Jornalista

Publicação: 16/03/2017 03:00

Há pouco mais de meio século, um jovem recifense de Campo Grande, bairro da zona norte da cidade, compôs uma Música para participar de um concurso. O ano era 1966. Mas o Recife foi invadido pelas águas do Capibaribe e as inscrições suspensas. Com a melodia e a letra debaixo do braço, o pretenso compositor pegou um ônibus da Itapemirim e foi pro Rio de Janeiro passar uma temporada na casa do tio Orlando Dias, intérprete de um bolero passional que fazia sucesso nas rádios do Brasil inteiro: “Tu és a criatura mais linda/que meus olhos já viram”.

Cá no Recife, passada a ressaca da cheia, a vida começava a dar sinais de normalidade e o concurso voltou a valer. Na bolsa de apostas, dois favoritos ocupavam os primeiros lugares, Capiba e Nelson Ferreira. O migrante nordestino que estava passando uma temporada na cidade maravilhosa só soube da notícia na noite da véspera do encerramento das inscrições. Não fechou os olhos um minuto sequer. Às quatro da manhã, tomou um banho, bebeu um gole de café e pegou o trem. Três horas depois, começou uma peregrinação pelas filas do Aeroporto Santos Dumont. Chovia lá fora e as pessoas não pareciam bem humoradas. “Quem vai pro Recife aqui?”. Quase ninguém respondia. Até que, por um acaso, e o acaso é Deus - como diria Fernando Pessoa -, uma senhora respondeu afirmativamente. As pernas do neófito compositor começaram a tremer. E o coração ameaçava sair pela boca.

A senhora mora onde lá no Recife? Eu moro em Campo Grande. Que Coincidência!, a senhora pode levar essa encomenda que uma pessoa da rua do Clube das Pás vai buscar?

Posso, claro!, minha casa fica na rua ao lado.

Mal sabia aquela anônima senhora que naquele momento iria cruzar os céus do Brasil levando na bagagem a letra e a partitura de uma música que, passados 51 anos daquela chuvosa manhã, ainda hoje faz sucesso: “Vejo Recife prateado/ À luz da lua que surgiu/ Há um poema aos namorados/ No céu e nas águas dos rios/ Um seresteiro, um violão/ Anunciando o amanhecer/ Um sino ao longe a badalar/Recife vai render/ Ave Maria ao pé do altar/ Bumba-meu-boi, Maracatu/ Recife dos meus carnavais/ Não vejo mais sinhá mocinha/ À luz de um lampião de gás/ És primavera dos amores/ Do horizonte és arrebol/ Vai madrugada serena/  Traz delirante poema/ Recife manhã de sol”.

Aquele jovem hoje é um homem de 74 anos, formado em História, professor aposentado e se chama Jota Michiles. “Recife manhã de sol” é o que poderíamos classificar de hino da capital pernambucana. Na voz de Maria Bethânia, é de fazer qualquer um chorar. Apesar de ser um frevo na categoria marcha-de-bloco e ser cantado em todas as horas do Carnaval, é atemporal. Ouve-se em qualquer época do ano. Se estiver fora do perímetro recifense e tiver tomado algumas doses de Bacardi, evite ouvir para não dar vexame! No concurso promovido pela Prefeitura, Recife Manhã de Sol foi interpretada pelo cantor Marcus Aguiar e tirou primeiro lugar. Com o dinheiro do prêmio, Michiles comprou um táxi e uma casa para os pais. E não parou mais de compor. Ao longo da sua trajetória artística, já compôs xotes, baiões, e, principalmente, frevos, que na voz de Alceu Valença viraram sucessos perenes: “Bom Demais”, “Me Segura Senão eu Caio”, “Diabo Louro”, “Vampira”, “Roda e Avisa” (homenagem a Chacrinha, em parceria com Edson Rodrigues), “
Me Segura Senão eu Caio”, sem falar no maracatu “Recife Nagô”, com Chico César, e “Espelho Doido”, com Nádia Maia, entre tantas outras.

Jota Michiles, os recifenses biológicos e de coração lhe devem reverências e serão eternamente gratos a você pelo hino in pectore da terra do frevo e do maracatu.

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