Igreja segue mandamentos ecológicos do pe. Cícero

Terezinha Nunes
Deputada estadual do PSDB e presidente do PSDB Mulher-PE

Publicação: 15/03/2017 03:00

Nascido no Ceará e considerado um verdadeiro santo pelos sertanejos, o padre Cícero Romão Batista foi ex-comungado pelo Vaticano em 1916 em função do que foi considerado na época “erro de interpretação sobre um não reconhecido milagre do sangue na hóstia”. A beata Mocinha, auxiliar e amiga do sacerdote, jurava e todos acreditavam que quando recebia a comunhão das mãos do padre a hóstia se transformava em sangue.

Noventa e nove anos depois, em dezembro de 2015, o papa Francisco decidiu perdoar o padre Cícero através de carta enviada ao bispo do Crato, no Ceará, dom Fernando Panico, abrindo a possibilidade para sua canonização, um grande sonho dos sertanejos até hoje não realizado pela Santa Sé.

Este ano, a Igreja Católica nordestina dá mais um passo no processo de incorporação da memória do padre Cícero e o faz oficialmente recomendando a todos os católicos seguir o que ficou conhecido como os “mandamentos ecológicos do padre Cícero”, escritos por ele na época em que viveu para orientar as pessoas a cuidar da caatinga, um dos seis biomas brasileiros cuja preservação é defendida pela CNBB  na Campanha da Fraternidade de 2017.

Em Pernambuco, o arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, e o bispo auxiliar da Arquidiocese, dom Antonio Tourinho Neto, não só incluíram em pronunciamentos feitos, na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal sobre a Campanha da Fraternidade, os mandamentos do padre Cícero, como chegaram a ler pausadamente o seu enunciado, chamando a atenção para atualidade do pensamento do religioso cearense.

E o que dizia há mais de 100 anos o padre Cícero sobre a necessidade de manter viva a natureza na caatinga?

Em linguagem simples e sertaneja ele pregou : 1- Não derrube o mato nem mesmo um pé de pau. 2- Não toque fogo no roçado nem na Caatinga. 3- Não cace mais e deixe os bichos viverem. 4- Não crie boi nem bode soltos ; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer. 5- Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não se arraste e não se perca a sua riqueza. 6- Faça uma cisterna no oitão da casa para guardar água de chuva. 7- Represe os riachos de 100 em 100 metros, ainda que seja com pedra solta. 8 – Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o Sertão todo seja uma mata só. 9 – Aprenda a tirar proveito das plantas da Caatinga, como maniçoba, favela e jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca; 10 – Se o sertanejo obedecer a esses preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer. 11- Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o Sertão todo vai virar um deserto só.

Ao  comentar o perdão que o papa Francisco concedeu ao padre Cícero, o bispo do Crato dom Fernando Panico cravou que com o gesto papal, a Igreja estava também pedindo perdão por um erro cometido.

Ao ler os mandamentos do padre Cícero fica claro que se tivesse ele tido na época o reconhecimento que precisava e utilizado a influência que tinha para fazer seu pensamento chegar a todos os nordestinos, certamente a Caatinga sertaneja estaria bem melhor. Ao contrário, virou um verdadeiro deserto como ele preconizou há um século.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.