Carnaval: tentativa de sublimação?

Neuma Costa
Professora aposentada do IFPE

Publicação: 15/03/2017 03:00

Para começar, permitam-me admitir que os festejos carnavalescos corroboram com o processo de desconstrução da metafísica, ocorrido no final século XIX, uma vez que nos obrigam a deslocar a questão central da filosofia - da relação entre o pensamento e o mundo, para a relação entre o pensamento e a linguagem. Dessa forma, o mundo referencial é traduzido, durante o carnaval, através de uma linguagem alegórica: são representações que se afastam de relatos históricos de teor racional, para recriarem outro tipo de memória, povoada por imagens idealizadas.

Ao dispensar o caráter documental, e diante do efeito de sentido provocado pelos arranjos, a linguagem do espetáculo se liberta do seu torpor metafórico, para falar, explicitamente, do que interessa, ou seja, das sensações tátil-visuais que ganham força com a indiscutível recorrência a símbolos e mitos. Papangus, caboclos de lança, mascarados, calungas, burrinhas, palhaços etc. são apelos míticos os quais compõem um sistema de valores e crenças que integram o imaginário coletivo.

É assim que os foliões buscam modelizar o mundo, através de conjuntos de signos que, ao interagirem, ativam modelos cognitivos de natureza diversificada, ou seja, apontam não só para o cômico, mas também para o lírico e para o erótico. Essas representações são entendidas pela Semiótica como um fenômeno chamado transcodificação, referência à passagem de um código a outro. Como não é possível a enunciação completa apenas pela linguagem verbal, o povo recorre a sistemas não verbais (cores, formas, música, gesticulação, acrobacias), na tentativa de reatualização da memória popular.

Vem a propósito aqui a teoria da carnavalização, do filósofo Bakhtin, segundo a qual o clima festivo emana dos fins superiores da existência humana, à medida que acentua as diferenças entre o caráter-oficial dos festejos públicos institucionais e os eventos populares, estes baseados no princípio da vida festiva, experiência que permitiu aos indivíduos estabelecer relações verdadeiramente humanas. Sem dúvida, trata-se de outra visão de mundo, cuja irreverência faz desaparecer as relações hierárquicas, transformadas, então, em cultos cômicos os quais convertem as divindades em objetos de burla e de blasfêmia.

Revestida desse caráter anárquico, a linguagem carnavalesca, como referido, ao superar a incompletude da palavra, faz emergir esse potencial representativo da extensão do indivíduo, para construir um universo de histórias, causos, mitos e narrativas do povo – um universo denominado memória social. Diante desse cortejo multicultural, só nos resta recorrer ao clássico do cancioneiro popular: “Eu perguntei a Deus do céu, ai, por que tamanha sublimação?”

Esse prazer imaginário ou simbólico, que transforma a praça pública em palco, poderia ser entendido como um mecanismo de defesa contra as pulsões, uma forma de superar dificuldades, mas não convém investir nessa possibilidade de sublimação, ou fuga. Melhor insistir na ideia de reatualização da memória popular, com base na teoria bakhtiniana de que o carnaval é um tipo particular de comunicação, inconcebível em situações normais. Fugindo da estética burguesa, o riso do povo torna-se capaz de criar um espaço de reciprocidade, em que se anulam desejos singularizados. Assim, ao vencerem a barreira do individual, os sujeitos se tornam cúmplices e agentes desse grande diálogo social do qual resulta um produto final - o milagre da EMOÇÃO COLETIVA.

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