Fraternidade, biomas, transfiguração

Clóvis Cavalcanti
Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE)

Publicação: 14/03/2017 03:00

Como faz todo ano, a igreja católica lançou na quarta-feira de cinzas sua Campanha da Fraternidade de 2017 (CF 2017). Escolheu um tema muito relevante no momento, “Biomas brasileiros e defesa da vida”, citando o Gênesis, “Cultivar e guardar a criação”. O mundo se encontra diante de uma encruzilhada. São sérias, as ameaças de colapso ecológico. De 1,5 bilhão de pessoas em 1900, a população do planeta passou para 7,4 bilhões em 2017. E o PIB global, a preços atuais, de 2 trilhões de dólares em 1900 para 95 trilhões em 2017. Ou seja, em pouco mais de um século, o contingente demográfico do planeta se multiplicou de 4,8 vezes e a economia, de 47,5. Isso tem implicações muito mais impactantes do que imagina quem desfruta de conforto num 20º andar de prédio na av. Boa Viagem. De mundo vazio, passamos para um mundo cheio, onde as pessoas, por assim dizer, estão se acotovelando. Daí, déficits ecológicos têm atingido patamares muito elevados. O problema se agrava porque é preciso cada vez mais esforço para obtenção de uma mesma quantidade de recursos. No caso do pré-sal, por exemplo, vendido insanamente como salvação da pátria, vale a pena considerar a realidade alternativa de um petróleo à flor da terra, como o saudita. Um barril de petróleo do subsal brasileiro requer muito mais energia para sair da terra do que um barril bombeado de jazida a 20 metros de profundidade nos países árabes. Além disso, petróleo é para se usar menos, pois ele reforça o peso ameaçador da mudança climática.

O papa Francisco, falando como cidadão planetário muito mais do que como sumo pontífice, avisa sobre isso em sua encíclica Laudato Si’, que tem quase dois anos. “Cultivar e guardar a criação” é o conselho mais pertinente para uma humanidade que se imagina senhora e dona da natureza, e acredita que os problemas ambientais possam ser resolvidos através da ciência e tecnologia. Há limites biofísicos no planeta, que não podem ser desrespeitados. É o caso, por exemplo, da biodiversidade, cuja existência não depende dos humanos, mas cuja diminuição, sim. Sobre isso, pode-se classificar de assustadora a extinção da vida planetária das últimas décadas, de uma ordem tal que faz o mundo da ciência compará-la à que aconteceu 65 milhões de anos atrás, quando os dinossauros desapareceram. Esta nossa será a sexta grande extinção da vida na Terra, resultante da destruição de habitats, da introdução de espécies invasoras, das mudanças climáticas. Na verdade, a perda de espécies agora é 100 vezes maior do que a que seria considerada normal. O conjunto de fenômenos antropogênicos, que possui enorme amplitude, até fez surgir um nome para a era geológica atual, Antropoceno. Ele expressa justamente a arrogância do poder destruidor da Homo sapiens.

Ao trazer a lume a significação da defesa da vida tendo como referência os biomas brasileiros – Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado, Pampa – a Campanha da Fraternidade de 2017, além de se preocupar com sua integridade e seu valor estético, traz um recado para o que eles representam na mitigação das mudanças climáticas. Como diz o físico Alexandre Costa, da UFCE, em entrevista à Revista ihu on-line, é preciso entender a ciclagem de água e carbono e as influências do desmatamento, queimadas e mudança do clima global nesses biomas. Preservá-los “vai além da mudança de hábitos (por exemplo, reduzir o consumo de carne, principalmente se a procedência desta for a Amazônia ou o Cerrado). É preciso ter políticas públicas no sentido contrário daquelas que vêm sendo aplicadas há vários anos e que levaram à expansão da soja, da pecuária, da mineração, da exploração de combustíveis fósseis e da construção de grandes barragens, como Belo Monte”. Ou seja, estamos diante do desafio de uma Transfiguração: esse parece ser o recado de Francisco e da CF 2017.

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