Em busca do poeta José Carlos Targino

Raimundo Carrero *

Publicação: 13/03/2017 03:00

Incompreensível o silêncio que pesa sobre a obra de José Carlos Targino, um dos poetas mais importantes da Geração 65, com uma grande obra, de forte realização em Pernambuco. Sei que se trata de um intelectual recluso, muito concentrado, nunca fala de si mesmo nem sequer de seus livros, sempre arredio. Trabalhamos juntos na Universidade Federal de Pernambuco, sob o comando do sempre eterno Ariano Suassuna. Nunca fez questão sequer de publicar.

Foi publicado, inicialmente,  por Elói Melo mas, apesar de sua grandeza, permaneceu sem alarde. Leitor dos poetas românticos ingleses, de, quem naturalmente, sofreu forte influência, participou do que chamaríamos de segunda fase da Geração 65, já instalado no Recife, mantendo pouco contato com os companheiros, publicando alguma coisa no Jornal Universitário, da UFPE.

Numa visão rápida da produção poética deste poeta silenciado, vamos lembrar os versos de Luz Imóvel, um dos seus clássicos:

“Madre, não é assim que justificamos os nossos mortos/ Percorri duas vezes aquele lugar: / Eles estavam sobre a montanha; um bando enorme e recusei às pressas; venham, venham, disseram as crianças/ e nenhuma resposta irrompeu em seu mundo; madre, um espaço infinito/há de anular teu coração/e o teu também/ meu coração então cederá silenciosamente/ e não o clamor de carvões/ e pedras, como diria certo mestre.”

Lendo o belíssimo poema e refletindo sobre a força das suas palavras, estranha-se, mais ainda, o silêncio que se impôs sobre o nome do escritor, que era amigo de Jaci Bezerra e de Alberto Cunha Mello, desde os primeiros momentos da Geração 65. Muitos outros poemas devem ser publicados, o que faremos logo que for possível.

Quando fui presidente da Fundarpe incluí uma breve antologia dos poemas de Targino no programa dos “Cadernos de Poesia”,  registrando o vigor deste poeta e destacando a importância de sua produção literária. São poucos, pouquíssimos os escritores brasileiros que ostentam uma obra tão rica. Mas, no momento, está silenciado. Como silenciados foram os escritores – poetas e romancistas – vítimas do crime de lesa-literatura, promovido no Brasil de forma violenta pelos invejosos e ciumentos, porque não conseguem construir uma obra ou escrever um simples hai-kai. Nesta obra de silêncio sobre silêncio, algo que não foi concebido nem mesmo da cortina de ferro, cabe-me, portanto, perguntar: Como você está, Targino?

* Escritor e jornalista

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