Amor ao Recife

Maurício Rands*

Publicação: 13/03/2017 03:00

Nossa cidade do Recife, gêmea de Olinda, ontem completou 480 anos de vida. Alcançando cinco séculos, fato raro para uma cidade do novo mundo. Vida que sempre despertou o amor dos que aqui nascem ou vivem. Um amor tão bem captado por Mauro Mota ao apresentar obra de Mário Sette: “O autor (…) de cabelos brancos, namora e faz madrigais. Não mais a uma mulher: a uma cidade. O idílio é com ela e à moda antiga. (…) Afeto de quem a soube amar como moço e a ama ainda mais, por melhor compreendê-la, já velho”. Ou por Manuel Bandeira: “Recife.../Rua da União.../A casa de meu avô.../Nunca pensei que ela acabasse!/Tudo lá parecia impregnado de eternidade/Recife../.Meu avô morto./Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro/como a casa de meu avô”. Ou por Antônio Maria. Qual o recifense que, distante, já não se emocionou ao ouvir o Frevo nº 1 do Recife? “Ô ô ô saudade/Saudade tão grande/Saudade que eu sinto/Do Clube das Pás, do Vassouras/Passistas traçando tesouras/Nas ruas repletas de lá/Batidas de bombos/São maracatus retardados/Chegando à cidade, cansados,/Com seus estandartes no ar./Que adianta se o Recife está longe/E a saudade é tão grande/Que eu até me embaraço/Parece que eu vejo/Valfrido Cebola no passo/Haroldo Fatias, Colaço/Recife está perto de mim”. Ou por Ledo Ivo: “Amar mulheres, várias./Amar cidades, só uma - Recife. (...) Amar senhoras, muitas./ Cidade, só uma, e assim mesmo com o vento amplo do Atlântico/e o sol do Nordeste entre as mãos”.

Uma cidade tem alma, espírito. Sem refletir, reproduzimos o seu modo peculiar de ver o mundo. O recifense gosta de ver o mundo. Aliás, acha que ele começou aqui. Mas gosta mesmo é de voltar ao Recife. Dele sente uma saudade perene. Do seu passado, do seu presente e mesmo do seu futuro. Por isso, queremos sempre a ele regressar. Mas o recifense tem outra paixão, a de acolher gente de fora. No mínimo, pela curiosidade sobre outros sotaques, sentires e hábitos. Talvez, porque Maurício de Nassau tenha quebrado a natural resistência ao forasteiro ao deitar marcas de urbanismo, cultura e cosmopolitanismo que até hoje nos moldam.

Recife é cultura, frevo, maracatu, caboclinhos, pastoril, capoeira. É Capiba, Ascenso Ferreira, Chico Science, Reginaldo Rossi, Alceu, J. Michiles, Spock, Claudionor, André Rio. É procissão para os santos católicos, mas também é candomblé nos terreiros e Yemanjá em suas praias. É literatura, Manuel Bandeira, Mário Sette, Joaquim Cardozo, João Cabral, Mauro Mota, Renato Carneiro Campos, Raimundo Carrero, Luzilá. Sãos seus artistas plásticos: Abelardo da Hora, Brennand, Zé Cláudio, Teresa Costa Rego, Cícero Dias, João Câmara.  

O Recife tem também seu lado cruel, de preconceito e exclusão social. Aqui a inveja encontrou campo fértil, como na lenda dos caranguejos, que puxam para baixo os que se ousam alçar. Uma cidade marcada pelo homem-caranguejo, excluído nos manguezais e favelas, tão bem estudado por Josué de Castro. Uma desigualdade, herdada do patriarcalismo da casa-grande, que teima em se reproduzir. Mas que gera a sagrada resistência. Desde 1710, 1817, 1821, 1848, o recifense é abusado. Tem coragem de se levantar contra as iniquidades de toda sorte. Como fizeram Joaquim Nabuco, José Mariano, Olegarina e os membros do Clube do Cupim para viabilizar a Abolição. Ou como ousaram alguns dos primeiros grevistas operários no começo do século. Daqui, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Joaquim Ferreira, Romeu da Fonte e Morse Lyra Neto ensinaram que camponês também é gente, com as Ligas Camponesas e os sindicatos rurais. Aqui a Frente do Recife mostrou que se pode governar verdadeiramente para o povo, como fizeram Pelópidas, Arraes e os herdeiros daquela tradição política. Aqui o movimento de cultura popular, com Germano e Norma Coelho, Paulo Freire, Abelardo da Hora e Anita Paes Barreto, avançou uma práxis emancipatória. Daqui a Igreja de Dom Hélder e Frei Aloísio Fragoso irradiou a opção preferencial pelos pobres. Nossa representação política sempre teve mais peso do que a economia do estado no contexto nacional. Recifenses ou pernambucanos governaram o Brasil, a começar pelo Marquês de Olinda (Araújo Lima), que foi regente e presidente do Conselho do Império, passando por Rosa e Silva, Marco Maciel e terminando por Lula  com sua opção pelas políticas sociais.

Com esta tradição irredenta, o Recife tornou-se ‘a noiva da revolução’ cantada por Carlos Pena. Virou sinônimo de revoluções libertárias. E tem seu orgulho. O pernambucanês, arretado, que insiste em usar o artigo definido. Que a origem do seu nome é um acidente geográfico. Do Recife e não simplesmente Recife. Como está na Lei Orgânica. Ou no pito de Gilberto Freyre: “O Recife, sim! Recife, não!”.  Ou no de Waldemar de Oliveira, “Isso de dizer 'em Recife' é ignorância de gente do Sul, que não sabe muito de tais coisas...”

O Recife nos enamora pelos nomes das ruas, poéticos, sonoros e ternos. Rua do Sol, da Aurora, da Saudade, da União, da Concórdia, da Praia, do Sossego. E nos conquista por suas pontes, rios e arquitetura. Mas também pelos seus tipos, como os vendedores de nossa infância. De rolete, pirulito, japonês, amendoim, cavaquinho e algodão doce. Como no brado do vendedor de pães: “grão de bico, suíço e doce". Que fez os acadêmicos da Faculdade de Direito, ao ouvir o pregão, consternados, imaginarem que o colega apelidado “Grão de Bico” tinha se suicidado. A rebeldia do recifense gerou um eterno espírito boêmio que transborda dos botecos, das bocas e dos becos. E chega à literatura e à política. E também à sala de aula, como no dia em que o professor petulante pediu ao bedel na Faculdade de Direito, depois que um aluno inquirido não acertou a resposta: ‘o sr. poderia trazer um feixe de capim’? Para logo em seguida ouvir do estudante Erickson Luna, poeta e anarquista: “E pra mim um cafezinho...”. Por tudo isso, Renato Carneiro Campos, em crônica publicada neste Diário de Pernambuco, resignou-se: “Sinto-me preso ao Recife com a resignação de um condenado à prisão perpétua. Pés de chumbo, asas cortadas. Lar e exílio ao mesmo tempo. Nunca, porém um Robinson Crusoé cansado da sua ilha. Sinto que há alguma coisa de conquista na minha permanência. Algo assim como quem apanhou e deu mas que não terminou perdendo. Mais: compreendeu, identificou-se, misturou-se. A coragem de ficar, de não fugir, de não procurar melhoras, como se possuíssemos - eu e o Recife - um mesmo destino, independente dos seus dirigentes, dos seus transitórios amores oficiais”.


* Advogado, PhD pela Universidade Oxford, professor de Direito da UFPE

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