A humanidade perde Starzl, o 'pai dos transplantes'

Cláudio Lacerda
Cirurgião. Professor da UPE e da Uninassau

Publicação: 10/03/2017 03:00

No dia 4 deste mês, faleceu, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, aos 90 anos, Thomaz Starzl, considerado o maior ícone da história dos transplantes de órgãos que, por sua vez, está entre os capítulos mais bonitos e emocionantes da história da medicina.

Depois de vários anos de pesquisas em laboratórios experimentais, nos quais praticou o transplante em centenas de cães, porcos e outros animais, com o objetivo de superar as dificuldades técnicas do mais complexo dos órgãos, Starzl e sua equipe realizaram, no dia primeiro de março de 1963, o primeiro transplante de fígado em humano, no mundo, numa criança hispânica, de nome Bennie Solis.

Em seu livro autobiográfico The Puzzle People, Starzl narra, com minúcias e surpreendente humildade, o desfecho trágico do caso, em que o menino foi a óbito com hemorragia incontrolável, antes mesmo do fechamento do abdome. Revivendo a imensa frustração, conta que “até hoje guarda a imagem daquela criaturinha de Deus, que nos seus três anos de vida não tivera um dia sequer de saúde e que agora jazia lívida naquela mesa cirúrgica fria, numa sala ensanguentada, contemplada por toda a equipe que, sentada ao chão, imobilizada, em silêncio profundo, sentia-se arrasada pela perda e pelo sentimento de derrota e impotência”. E fecha a narrativa dizendo que “a cena só foi interrompida quando alguém disse: temos que sair para a sala ser lavada, pois outro paciente precisa ser operado”.

Mais adiante, no livro, Starzl afirma que desde então jamais alguém que esteve ali, se referiu àqueles acontecimentos de primeiro de março de 1963 como “o caso Solis” ou como o “primeiro transplante de fígado da história”. Sempre que voltou à tona, o assunto veio com o simples nome: “Bennie”.

Nos meses e anos seguintes, Starzl e sua equipe realizaram mais seis transplantes de fígado em humanos. Todos mal sucedidos, e os pacientes foram a óbito antes da alta hospitalar. Sob fogo cruzado da imprensa leiga e críticas da comunidade científica, meio cética quanto à possibilidade de transplantar-se fígado, recebeu o apelido pejorativo de Dr. Frankenstein. Teve, então, a grandeza histórica de publicar esses casos em detalhes, tentando identificar e expor os erros cometidos. Em seguida, anunciou que não desistiria, mas mergulharia de volta no laboratório para tentar resolver os problemas técnicos vivenciados naqueles pacientes, antes de voltar ao transplante em humanos.

Em 1967, Thomaz Starzl, depois de um longo período de autoexílio dedicado à cirurgia experimental em laboratório, provou mais uma vez que os grandes homens se revelam na adversidade: voltou à clínica e realizou o primeiro transplante hepático bem sucedido no mundo. Esse caso estimulou a realização de uma série de outros transplantes em Denver, bem como o surgimento de outros centros nos Estados Unidos e na Europa, nos anos subsequentes.

Em 1987, o “Dr. Frankenstein”, já trabalhando em Pittsburgh, onde ulteriormente desenvolveu o maior programa de transplante de fígado do mundo, recebeu homenagem histórica ao completar 25 anos de dedicação à atividade e, em junho de 2013, por ocasião do XII International Liver Transplant Congress, em Sidney, na Austrália, aos 87 anos de idade, foi homenageado, de maneira apoteótica, por toda a comunidade transplantadora do mundo, pelos 50 anos do “transplante de Bennie”. Que o grande Mestre, e grande homem, merecedor do Prêmio Nobel, descanse em paz.

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