A meta do Meirelles

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 09/03/2017 03:00

Li hoje, no Diario de Pernambuco, uma fala do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que me fez rir. Tenho esse traço, rio nas situações mais imprevisíveis. Acho que o riso mantém a minha serenidade. Realmente, recomendo. Nas desgraças, o riso pode ser mais libertador que o palavrão. Certamente é mais libertador que o choro. Mas melhor mesmo é associar o riso ao palavrão. Pense numa catarse!

As palavras do ministro: “Vou repetir aquilo que já disse em agosto do ano passado. Se for necessário aumentar imposto, será aumentado, se for necessário contingenciar ainda mais, será contingenciado. O nosso compromisso é com cumprir a meta”

O povo? Que se dane o povo, porque o importante é cumprir a meta. Por exemplo, uma das metas é que a inflação tem que baixar. Não interessa se ela baixa por causa da recessão, do desemprego, porque as pessoas não estão comprando, porque a economia não está girando. Claro que isso não importa, porque o que importa é cumprir a meta.

Outra meta: o país tem que arrecadar mais. Não importa quem vai pagar essa conta, porque o que importa é cumprir a meta. E a meta são números, contas e tudo o que há de mais asséptico possível, onde claramente não se inclui a ideia de povo. Se o sistema tributário brasileiro é regressivo, é injusto, onera mais quem tem menos ...  Isso definitivamente não importa. Porque o compromisso do governo é com cumprir a meta.

E o contingenciamento? Contingenciar significa controlar despesas. Que despesas contingenciar? Claro que as despesas com o povo, porque nesse caso, o mais é sempre menos. Apesar de maior em número o povo é pouco, muito pouco em peso político, em especial para um governo que não se preocupa com o voto popular, que nunca teve, mas só com os votos do Parlamento, para juntos se locupletarem.

Frequento em Boa Viagem uma academia de ginástica que se autodenomina “Espaço de Metas”. Quando cheguei por lá, anos atrás, me perguntaram: Lu, qual a sua meta? Eu disse: ahh...  Eu quero emagrecer, secar, definir, aumentar minha força, minha resistência aeróbica e acima de tudo, ter saúde. Eu tenho também esse traço, penso grande!

Vez por outra fazem uma avaliação física em mim, e vejo que dependendo da época - porque a vida da gente não é um mar de rosas e de calmaria, ora estou mais magra, ora estou mais forte, ora estou com mais fôlego, mas posso afirmar que sempre me senti com mais saúde.

Essa deveria ser a meta do ministro da economia: dar mais saúde ao Brasil. Mas para isso ele precisaria ser um pouco mais sociólogo; ele precisaria ser um pouco mais interdisciplinar. E enxergar para além dos números.

Porque o Brasil está muito doente, sim. Mas o remédio amargo não deveria ser dado ao povo, com o aumento de impostos e corte de gastos sociais. Até porque o povo já está sobrevivendo à base de morfina - poderoso narcótico de alto poder analgésico usado para aliviar dores severas.

O remédio amargo deveria ser dado para diminuir os privilégios e interesses dos rentistas, do agronegócio, dos grandes conglomerados empresariais, dos grupos monopolistas da mídia brasileira, e de todos aqueles que os representam. Isso se o governo estivesse preocupado com o povo (rs rs rs rs).

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