Rio São Francisco

Ary Avellar Diniz
Diretor do Colégio Boa Viagem e da Faculdade Pernambucana de Saúde

Publicação: 09/03/2017 03:00

O Rio São Francisco nasce distante, na serra da Canastra, em Minas Gerais, e percorre um espaço de 2800km, equivalente à extensão Recife-Rio, passando por, aproximadamente, 500 municípios e atendendo a 12 milhões de pessoas.

Deságua em sua foz no oceano Atlântico, divisa de Sergipe e Alagoas, onde se misturam as águas doces e salgadas, entrelaçando-se como se estivessem a ensaiar passos de um balé aquático.

O Rio São Francisco, com propriedade, é chamado de Rio da Integração Nacional, pois, em seu generoso curso, banha, integrando-os, 5 estados, do Sudeste ao Nordeste brasileiro, numa área de 641.000km2, correspondente a 7,5% da superfície do território nacional, o que favorece uma população nordestina de 6.800.000 habitantes.

Em certo trecho do seu deslocamento, na cidade de Petrolina (PE), encontra-se expressivo projeto vinícola, tornando Pernambuco o segundo maior produtor de vinhos do Brasil. Além das plantações de parreiras, acrescenta-se a cultura do melão, da banana e da manga, esta última com 750.000 toneladas exportadas principalmente para os Estados Unidos… 90% das mangas exportadas pelo Brasil saem dessa região!

O brasileiro, entretanto, necessita saber negociar melhor seus produtos. Estive em Paris, num hotel que se situava contíguo a um shopping center que vendia, no espaço destinado às frutas, manga com a etiqueta: “Made in Germany”. Além do mais, o governo deveria ficar mais atento e não permitir a venda dessas terras produtivas ao capital estrangeiro, cujo propósito é adquirir grandes áreas destinadas à produção de soja e outras oleaginosas, a fim de atender a fabricação de combustíveis renováveis e, com isso, favorecer seus países. Afinal, o Rio São Francisco é nordestino, pertence ao povo da região e somente ele deve beneficiar-se da sua riqueza, a exemplo das instalações das hidrelétricas de Itaparica, Xingó e Paulo Afonso, responsáveis pela geração de energia na Região Nordeste, além da irrigação das lavouras, dessedentação dos rebanhos e, sobretudo, desenvolvimento da agroindústria e geração de empregos.

O governo tem-se preocupado com a qualificação do trabalhador da região, ensinando-o a plantar, a utilizar a água na quantidade certa para cada planta e a evitar desperdícios.

Iniciado o projeto de transposição das águas do São Francisco em 2007, ao custo atual de, aproximadamente, oito bilhões de reais, a entrega total da obra está prevista para 2018 (?), notabilizando-se por ser considerado um dos maiores investimentos do mundo (477km lineares). A obra compreende 27 reservatórios, 14 aquedutos, nove estação de bombeamento e quatro túneis.

Quando se avalia o custo final do empreendimento em 8 bilhões, o qual se perpetuará “per omnia saecula saeculorum”, beneficiando o trabalhador do campo nordestino e protegendo-o das sofridas secas prolongadas, que causam enormes prejuízos, compreende-se que os estádios de futebol construídos para a Copa do Mundo de 2014 alcançaram estúpidas e malplanejadas quantias, todas acima de 10 bilhões de reais! Hoje, encontra-se a maioria deles inviável e com difícil manutenção, principalmente o Maracanã (custo: 1,5 bi!).

Nos esportes olímpicos (Rio 2016), os custos das instalações votadas às competições alcançaram cifras bem superiores à transposição do São Francisco e hoje estão, por infelicidade, em petição de miséria.

Ambos os investimentos, fora da realidade nacional, encontram-se até sem possibilidade de parcerias (governo e iniciativa privada).

Cadeia com os aproveitadores irresponsáveis!

Um dado interessante. A transposição do Velho Chico, como é chamado carinhosamente pelos nordestinos, foi pensada há 200 anos, no governo de D. Pedro II. É uma prova de que merece estrondosos fogos de artifícios durante a sua breve inauguração (vai depender dos atuais políticos governamentais), sem esquecer-se do agradecimento a Deus pelo final de tanto sofrimento, de um povo maltratado pela seca, mas resignado e sempre consciente de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” (Euclides da Cunha).

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