EDITORIAL » Sem política não há democracia

Publicação: 09/03/2017 03:00

Avança entre os políticos em Brasília a decisão de fazer algo que antes só faziam privadamente: assumir às claras o discurso da necessidade de distinguir caixa dois para campanha eleitoral e recursos obtidos para benefício pessoal. “Um cara que ganhou dinheiro na Petrobras não pode ser considerado a mesma coisa que aquele que ganhou cem pratas para se eleger”, disse Aécio Neves, na madrugada de anteontem, durante jantar na capital federal. A frase não é das mais felizes (“Cem pratas”?…), mas é emblemática da posição que ganhou status de argumento aberto a partir de nota do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, semana passada.

A pretexto de defender o próprio Aécio de acusações sob suposto envolvimento na Lava-Jato, FHC disse: “Há uma diferença entre quem recebeu recursos de caixa dois para financiamento de atividades político-eleitorais, erro que precisa ser reconhecido, reparado ou punido, daquele que obteve recursos para enriquecimento pessoal, crime puro e simples de corrupção”.

Mas, voltando a Aécio Neves no jantar em Brasília. “Todo mundo vai ficar no mesmo bolo e abriremos espaço para um salvador da Pátria?”, perguntou ele, acrescentando: “Não, é preciso salvar a política”.  Em sua fala, reproduzida por repórteres que estavam presentes, o presidente nacional do PSDB continuou: “Vamos nos autoexterminar? É preciso salvar a política. Não podemos deixar que tudo se misture”.

Assim como dissemos quando analisamos aqui a nota de FHC, repetimos agora:  noves fora a questão do mérito da proposta defendida, que deve ser apreciada pela Justiça, é preciso destacar que essa preocupação com a distinção entre “caixa dois para campanha e dinheiro para enriquecimento pessoal” é um discurso que só agora é assumido abertamento pelas lideranças do PSDB. Isso no momento em que a Lava-Jato, depois de ter devastado o território dos principais adversários dos tucanos, começa a aproximar-se também do território deles. Não há como não ver, nesse caso específico, um certo oportunismo na defesa - o que não tira sua eventual validade como elemento para debate não só jurídico, mas também político.

De tudo o que foi dito, porém, uma afirmação se destaca e merece crédito de todos nós - a de que é preciso salvar a política. Quando a política sucumbe, leva consigo a democracia.

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