Os desafios de ser mulher empreendedora

Mércia Moura
Empresária

Publicação: 08/03/2017 03:00

Todo ano, no dia 8 de março, ressurge o mito do incêndio criminoso que teria matado, em 1857, mulheres trabalhadoras do setor têxtil em uma fábrica de Nova York. Por isso, o Dia Internacional da Mulher é celebrado sempre naquela data, em homenagem à lendária chacina que, há tempos, retrata a dura realidade vivida pelo gênero feminino. Não por acaso, o mercado de trabalho é um dos ambientes que mais apresenta casos de machismo. Hoje, conseguimos notar uma forte presença de mulheres trabalhadoras e empreendedoras, mas ainda há um longo caminho pela frente.

Vivenciamos um tempo particular em que o mundo pede definições de questões políticas - não partidárias. No âmbito feminino, já passamos da hora de considerar, para além do papel, a igualdade, a liberdade, os direitos individuais, a segurança, a representação e legitimidade que foram subtraídos de nós, mulheres, por muito tempo. E é tão triste quanto estimulante perceber que ainda hoje somos vistas socio e politicamente como “menores”. Ser mulher empreendedora é, como bem definiu o italiano Antonio Gramsci, ser contra hegemonia. É ir na contramão de uma supremacia, atuando em práticas sociais e simbólicas fora do padrão.

Minha trajetória nos negócios ilustra bem isso. Era uma típica mocinha de novela, nascida em uma conjuntura social em que meu destino estava desenhado para ser dona de casa e dependente economicamente do marido. Entretanto, fui contra a hegemonia em uma conjuntura patriarcal, acreditei no potencial do meu trabalho, no meu talento, e ergui, em 1985, em um engenho de cana-de-açúcar na Mata Norte do estado, a MM Special/Marie Mercié. Confecção de roupas femininas que completa, em 2017, 32 anos, empregando diretamente mais de 300 pessoas, e mais de 150 de forma indireta, e atuando em mercados competitivos no Brasil e no mundo.

Claro, não foi, nem é fácil. Foi preciso tratar com bastante firmeza meus objetivos e propósitos para desenvolver uma nova cultura no ambiente articulado pelo machismo. E penso que os frutos colhidos desse trabalho não são só, e grandemente, a autonomia financeira, o fortalecimento da igualdade de gênero para as mulheres da Vila de Caricé, Itambé e Goiana. É, sobretudo, e sobre todas as outras coisas, a autoestima. É ver a mulher passar a gostar de si mesma e reconhecer a força da sua liberdade como um motor para conduzir a sua vida.

Afinal, é quando passamos a gostar de nós mesmas que atingimos a coragem de não tolerar mais humilhações, subtrações, a violência do companheiro machista em nome de um “amor”. Sentimento que dá a essa região o menor índice de violência contra a mulher no Estado. Acredito que a grande revolução feminista, de fato, passa pela consciência de que a solidão não é humilhante. A renúncia à nossa integridade é que é.

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