Pernambuco e sua vocação republicana

Fernando Araújo
Advogado e professor de Direito

Publicação: 07/03/2017 03:00

Para entender a Revolução Pernambucana de 1817, que ora comemoramos com orgulho nacional, necessário se faz buscar as inspirações desse acontecimento. Napoleão comandava os exércitos franceses e fazia suas ofensivas de guerra (1805-1815). A sua luta tinha duas vertentes: primeira, derrotar as nações absolutistas do continente europeu, adversárias dos princípios da Revolução Francesa. Segunda, derrotar a Inglaterra, para superar o seu poderio econômico e naval. Ao avançar, Napoleão provoca a fuga da Família Real para o Brasil (1808). Com o Rei vieram uma chusma de fidalgos inúteis e todo um aparato burocrático que nos infelicita até hoje. Some-se a isso o monopólio dos comerciantes portugueses sempre a provocar os concorrentes brasileiros. Ademais, para manter a entourage D. João VI subiu absurdamente os impostos, situação agravada pela crise da indústria açucareira, vítima do açúcar antilhano que passou a concorrer fortemente com o nosso. Havia muita fome nas cidades e no campo. O Nordeste também vivera uma seca braba em 1816. Esse quadro inflou a ponto de explodir o espírito de autonomia e de republicanismo dos nacionais, o que já vinha de longe, desde 1710 com Bernardo Vieira de Melo, décadas antes da Revolução francesa de 14-7-1789. Em 6-3-1817 eclodiu a nossa Revolução. Sem dúvida foi uma Revolução com ânimo de mudança radical. Por isso a tentativa foi acompanhada do uso da violência, do lado dos revolucionários e dos contrarrevolucionários, pois de fato o que se queria era derrubar as autoridades políticas existentes e as substituir, de modo a que houvesse mudanças nas relações políticas, jurídico-constitucionais e na esfera socioeconômica, com alteração do paradigma ideológico: de monarquia absolutista, para república constitucional. Isso, portanto, poderia ter levado a uma grande participação popular. Principalmente porque o apelo ao princípio da igualdade, em confronto com um Estado que vivia de distribuir privilégios aos seus áulicos ou os que incensavam o poder real. Mas os movimentos revolucionários por vezes duram pouco. Por duas razões: ou não conseguem mobilizar o grosso da população, por razões diversas, inclusive falta de liderança para influir no tecido socioeconômico de modo eficaz e permanente, apresentando alternativa segura e viável, que aqui não cabe analisar por falta de espaço, ou porque sofrem resistência das classes dominantes, que, atuando em contrarrevolução, com poderio material e humano maiores, acabam revertendo eventuais vantagens dos revolucionários. No caso pernambucano, há argumento dos dois lados. Ou seja, a vitória não se consolidou porque os líderes não souberam mobilizar o povo, apesar de apoio internacional. Na segunda versão, as forças da situação eram desproporcionalmente superiores. Com efeito, não era o momento de se dar início da revolução. Teria havido uma precipitação.

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