Dez datas

Vamireh Chacon *

Publicação: 06/03/2017 03:00

A história de Pernambuco atinge seus pontos cruciais de definições para o futuro em dez sucessivas etapas: 1648 e 1649, 1710, 1800, 1817, 1821, 1824, 1825, 1827 e 1848. Delas vêm os seguintes séculos de Pernambuco.

Nos anos de 1648 e 1649 são as continuadas batalhas nos mesmos Guararapes semeando a independência do Brasil. Em 1710 o grito já é independentista e republicano de Bernardo Vieira de Melo em Olinda.

Em 1800 é instalado o Seminário de Olinda pelo bispo Azeredo Coutinho, inovando a formação do clero pelo aprendizado também de francês, ao lado do tradicional latim, e de filosofia ao lado da teologia, abrindo-lhe possibilidades para direto aprendizado de autores do então recente século dezoito além dos tradicionais autores cristãos. O viajante francês Tollenare, em visita ao Pernambuco pré-revolucionário de 1817, surpreendeu-se com o direto conhecimento dos textos de Rousseau e dos iluministas pelos padres recém-egressos do Seminário de Olinda.

Em 1817 Pernambuco e vizinhos nordestinos proclamam e instalam independência e república antes das outras regiões brasileiras. Muniz Tavares, um dos sobreviventes líderes da insurreição de 1817, logo principal fundador e primeiro presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, diz que os rumores sobre as intenções destes revolucionários quererem incluir a abolição da escravatura entre suas reivindicações, são uma suspeita que muito os honra. Abolição ainda não realizada pela grande dependência econômica de Pernambuco e do Brasil diante da escravidão, porém com seu término já então desejado.

Um ano antes da independência do Brasil, 1821, o levante popular em Goiana chega ao Recife e em Beberibe é assinada a Convenção determinando a retirada das tropas portuguesas de Pernambuco, afirmando e firmando a factual independência sob a chefia de Gervásio Pires Ferreira antes do Brasil.

Em 1824 foi a vez da precedência pernambucana e nordestina no federalismo pela Confederação do Equador, nome usado antes da independência deste país realizada em 1830. O posterior Equador hispânico antes era parte do vice-reinado de Nova Granada com sede em Bogotá.

Nem 1817 nem 1824 eram separatistas. Esperavam e combatiam pelas adesões de outras regiões, que não aconteceram, mesmo com o sacrifício dos líderes locais. Barbosa Lima Sobrinho demonstra-o muito bem.Nem o jacobino Frei Joaquim do Amor Divino Caneca no seu jornal-revista O Typhis Pernambucano, evocação do nome do piloto dos argonautas na mitologia grega, o próprio Frei Caneca nunca foi separatista com todo seu jacobinismo de democrata liberal radical.

Em 1825 surge o Diario de Pernambuco pelas mãos de Antonino José de Miranda Falcão, de início uma folha de comércio, logo jornal diário. Pernambuco ainda estava quente pelas chamas da insurreição da Confederação do Equador de um ano antes. El Mercurio de Valparaíso, Chile, vem de 1827. Portanto o Diario de Pernambuco é o mais antigo jornal em circulação na América Latina. Logo ia se consagrar a maior tribuna da liberdade e cultura de Pernambuco para o Brasil.

O ano de 1827 é o da simultânea fundação das Faculdades de Direito de Olinda, depois no Recife, e São Paulo. Ambas no centro da preparação de sucessivas gerações de intelectuais e políticos do Norte e Sul do Brasil. A instalação de uma delas em Pernambuco era clara resposta às ideias insurrecionais de 1817 e 1824. A Faculdade em São Paulo, outra clara resposta ao centralismo da capital Rio de Janeiro.

A maioria dos seus alunos terminava os estudos onde começara. Outros principiavam numa e concluíam em outra. Rui Barbosa iniciou-se no Recife e terminou-os em São Paulo; o futuro Barão do Rio Branco fez o percurso inverso de São Paulo ao Recife. Castro Alves foi do Recife a São Paulo falecendo sem os terminar. Tobias Barreto e Sílvio Romero principiaram e concluíram seus cursos no Recife, Tobias vindo à cátedra na Faculdade do Recife e Sílvio na logo seguinte no Rio de Janeiro.

Da Faculdade de Direito de São Paulo vem a Universidade de São Paulo e da Faculdade de Direito do Recife a Universidade do Recife depois Federal de Pernambuco. Ambas têm motivos para continuar nos centros das respectivas capitais, nas suas antigas casas históricas

Desde os seus cursos anexos Júlio Frank preparou os primeiros políticos liberais do império em São Paulo e Antônio Pedro de Figueiredo nos do Recife os pioneiros socialistas da insurreição praieira de 1848. O estudantil Centro Acadêmico Onze de Agosto sempre foi um núcleo de resistência democrática na Faculdade de São Paulo. Na do Recife permanece a lembrança dos estudantes vindo com Gilberto Freyre e alguns professores para o comício na sacada do Diário de Pernambuco em 1945, quando tombou o estudante Demócrito de Souza Filho sob as últimas balas do ditatorial Estado Novo.

Pernambuco saúda em 2017 o bicentenário do 1817 pioneiro na independência e república brasileiras. O espírito de 1817, vindo da colina do Seminário de 1800 em Olinda, vai ao federalismo de 1824, à fundação da tribuna livre do Diario de Pernambuco em 1825 e da Faculdade de Direito do Recife em 1827 formando também gerações e gerações até hoje, e ao 1848 dos democratas sociais radicais. Todos condignos das sementes plantadas nos Guararapes em 1648 e 1649 e na Olinda de 1710.

* Professor Emérito da Universidade de Brasília

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