Revisitando as fantasias

Luciana Grassano Melo
Professora de Direito da UFPE

Publicação: 03/03/2017 03:00

Nesse carnaval fiz o cortejo da rainha pelas ladeiras de Olinda. Elizabeth II mostrou ser uma grande foliã e, no Sábado de Zé Pereira concordou em fantasiar-se de palhaço para acompanhar o desfile do Galo, junto com o nosso grupo.

Como tinha marcado com Trump um encontro no Alto da Sé de Olinda, no domingo preferiu vestir-se de sobriedade, e seguiu conosco em um vestido longo de renda rosa chá, mangas compridas e chapéu combinando, além de bolsa preta e sapato social. Posso dizer que a rainha é pop e cheia de estilo. Fina, realmente muito fina.

Me disse que tem escutado a voz dos britânicos contra os gastos da realeza e, por isso, trouxe apenas dois membros de sua guarda real. Achamos por bem melhorar sua comitiva e convidamos umas figuras ilustres para acompanhá-la no cortejo. Do além vieram John Lennon e George Harrison. Os Beatles só não estavam completos porque Ringo avisou de última hora que não vinha. Amy Winehouse tinha a função de entoar um “no, no, no” sempre que nos perguntavam: “Do you speak english?” Mas eu senti que a rainha gostou mesmo foi do James Bond, algumas vezes confundido com seu mordomo, pela taça de Campari que trazia, outras com seu segurança, pela Walther PPK - a pistola com que também lhe protegia.

Como o Brasil ainda é bom de mistura, levei uma amiga de São Paulo vestida de índia e grafitei um Fora Temer, que não podia faltar no grupo, na minha regata prata que coloquei por dentro de uma saia vermelha de lantejoulas. Com uma papoula encarnada na cabeça, enfeitando um aplique sucesso que coloquei no cabelo, desfilei minhas mechas californianas entre os super-heróis do domingo.

Como acontece com frequência no carnaval, o grupo meio que se desgarrou depois dos primeiros dias. Soube que a rainha decidiu descansar na segunda-feira e satisfazer seu desejo de comer as comidinhas locais como o mungunzá, o pirão, o caldinho de feijão e tudo que é bom para curar ressaca. Na terça, pasmem, repetiu a fantasia de palhaço e foi assistir ao show de Elba e de Alceu, no Recife Antigo.

Soube que se impressionou com a catarse dos populares gritando contra o governo Temer nos quatro cantos por onde andou em sua visita, e morreu de rir quando traduzimos para ela os dizeres gravados em uma camisa: “Pode me beijar que eu não sou golpista”.

Já tendo feito muito a corte nos dois primeiros dias, segunda e terça me misturei com a massa suada dos blocos de Olinda. Botei um penacho na cabeça na segunda-feira e na terça fantasiei as escamas e dentes de um dragão desenhados com delineador no meu rosto, para sair no bloco Eu acho é pouco, em Olinda. Uma pena que era tanta gente, para tão pouca música!

E na Quarta-feira de Cinzas, chegou a hora de despir a realeza de momo e deixar de lado as fantasias. Entretanto, não consegui parar ainda de rir. Desta vez da Rede Globo, que com atraso de quatro dias deu notícia dormida e assumiu oficialmente a verdade e a intensidade dos protestos nacionais contrários a Temer, no Brasil. Hora de desejar, de fato: Feliz Ano Novo, Diretas Já e Fora Temer, para o bem do nosso país.

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