Quem somos nós?

João Paulo S. de Siqueira
Advogado, professor e pesquisador

Publicação: 03/03/2017 03:00

Nosso país e nossa sociedade estão em crise! E, lamentavelmente, o estado de crise não é algo novo para nós brasileiros, entretanto, no atual momento que vivemos, a crise apresenta-se de modo lato, alcança inúmeros âmbitos e perspectivas, atinge a esfera econômica, política, social, ética, axiológica e institucional.

Penso que antes de tentarmos encontrar soluções, é preciso buscarmos as causas e origens desse lamentável cenário. Evidente que não há uma resposta única e simplória, uma vez que o presente é reflexo e resultado de um extenso desenvolvimento histórico, social e cultural.

Frente a essa dilemática missão, surge um questionamento imprescindível: Quem somos nós? É uma indagação incômoda, mas muito necessária, pois nossas leis, nossas práticas de consumo, nosso padrão comportamental, nossas relações culturais, nossas instituições, nossas escolhas políticas e nossos valores coletivos mostram e refletem a sociedade que somos e que construímos.

Nosso povo é grandioso e nossa cultura é fascinante, mas tão importante quanto elevarmos nossas incontáveis virtudes é refletirmos acerca de nossos inúmeros defeitos e mazelas. Lamentavelmente, e digo isso de maneira profunda, nós brasileiros ainda somos um povo que não percebe que nosso país é concebido por nós, em nossos atos cotidianos e simplórios.

E um país mais justo e melhor não será construído se continuarmos praticando ilicitudes e desrespeitos a todo momento. É preciso parar definitivamente de furar filas, estacionar irregularmente em vagas exclusivas de idosos e deficientes, consumir produtos piratas, utilizar-se ilegalmente do benefício da meia entrada, fechar cruzamentos, trafegar pela contramão ou acostamento, jogar lixo no chão, não declarar produtos trazidos do exterior e tantos outros atos que tornam nossa vida cotidiana tão corrompida.

Não podemos ser corretos e íntegros somente se houver a possibilidade de uma sanção, pois a lei, numa sociedade politizada e consciente, não é o único padrão de convivência, antes de tudo, devemos criar valores culturais e comportamentais de respeito e solidariedade ao próximo.

E esse novo panorama só pode ser construído pelo hábito diário e cotidiano de fazermos o certo, de não lezarmos direitos e prerrogativas de outros cidadãos. É fundamental rompermos com esse senso comum do “salve-se quem puder” e de que “dar um jeitinho” não faz mal a ninguém. Não culpemos o capitalismo, o governo, nossa colonização ou o destino por nossas desventuras, pois nossa sociedade, nosso país, nosso futuro são construídos por nós, não somente no dia das eleições, mas todos os dias, em nossas batalhas cotidianas.

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