EDITORIAL » Os EUA na contramão

Publicação: 03/03/2017 03:00

Após décadas de laboriosas negociações que permitiram a criação de um conjunto de normas e procedimentos para regulamentar o comércio mundial, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, desdenha do trabalho realizado nas últimas décadas com o objetivo de evitar uma guerra comercial em escala global. Ignorando seus parceiros internacionais, o condutor da maior potência econômica e militar do planeta atacou a Organização Mundial do Comércio (OMC) ao afirmar que seu país, a partir de agora, dará preferência à política unilateral para a troca de mercadorias com o mundo, afetando o equilíbrio duramente elaborado pelo organismo internacional.

O que causa grande apreensão é que mudança tão radical na política comercial dos EUA pode estimular outras nações a também adotarem medidas unilaterais, o que deverá provocar um caos nas relações de trocas. Especialistas temem pelo recrudescimento do protecionismo. Se a maior economia do mundo defende a tese de que a obediência às regras da OMC não é importante, outros países se sentirão tentados a seguir o exemplo, já que os setores que defendem o protecionismo, seja por motivos econômicos ou ideológicos, continuam à espreita.

Ao optar pelo uso da legislação comercial de seu país, em detrimento das regras internacionais até então observadas, a equipe do presidente norte-americano vira as costas para o mundo. Os assessores de Trump bradam o slogan de campanha — “América em primeiro lugar” —, mas esquecem que a economia globalizada foi largamente incentivada pelos próprios Estados Unidos, em parceria com as nações amigas.

O documento em que propõe a nova política comercial dos EUA, Trump não deixa dúvidas de que a intenção é remar contra o multilateralismo, que é uma das principais obras dos líderes mundiais após o flagelo da Segunda Grande Guerra. Mostra, claramente, que a soberania de seu país deve prevalecer sobre os acordos internacionais firmados por seus antecessores, inclusive de seu partido, o Republicano.

O maior risco apontado por economistas é de que o mundo volte à situação anterior à Segunda Guerra Mundial, quando os países promoveram uma verdadeira guerra tarifária e comercial. Quando a maior força no cenário econômico mundial se coloca contra a política de proteção ao comércio da OMC, os canais de diálogo e de entendimento têm de ser desobstruídos. Mas, como bem lembrou Johnson Pablo Bentes, especialista em comércio e investimento internacionais, a ação de Trump pode se voltar contra ele quando os empresários norte-americanos se sentirem prejudicados por eventuais retaliações de outros países a ações unilaterais dos EUA.

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