A visão ululante dos pós-comunas

Nagib Jorge Neto
Jornalista

Publicação: 02/03/2017 03:00

Além de monótona, cansativa, a unanimidade tende a ser arrogante e autoritária. Ela favorece a intolerância, o arbítrio, pois a maioria tem espaço para agir, opinar, enquanto a minoria fica sujeita a restrições, tateando nas armadilhas e becos da noite da unanimidade, que ameniza a treva com tons de amanhecer e gera um clima de ditadura disfarçada.
É por essa vereda que a sociedade brasileira passou a ser tema constante de discurso, debate, notícias, comentários. No tiroteio, a constatação de que está organizada, consciente, exige mudanças, influi nas decisões. Mais: define avanços e manda ignorar as reações dos discordantes, posições que só ficam claras através dos meios de comunicação, das ideias das elites.
Então a maioria aparece empenhada na reforma da Constituição, do Estado, da ordem econômica, na alteração de conquistas sociais, de monopólios, além de combater corporações, estatais, e defender mudanças no conceito de empresa nacional. Essa leitura vem desde 1990, quando a mídia propagou a “Era Collor”, com promessas de modernidade e redenção nacional.
A dimensão da sociedade era fantasia - hoje mais distante da realidade, pois se agravou a crise social e a maioria nada sabe sobre artigos e temas da Carta, nem faz ideia do objetivo e reflexos das reformas Apesar disso, as pesquisas mostram que a ação das forças no poder, influi no apoio que cresce desde 94, quando a faixa de pobreza pulou para 41,9 milhões, efeito que a Constituição não pode ser a vilã, pois não impediu a  execução do Plano Collor - que provocou a recessão - e do Plano Real. Ambos adotaram medidas de combate à inflação, de abertura da economia e de atração de capitais externos, escassos por força da crise política e econômica.
Mas as lideranças do Governo, segmentos da mídia, culpam a Carta de 88, os discordantes, a lentidão das reformas, das privatizações. No fundamental, querem a volta ao início do século XIX, quando no documento de abertura dos portos às nações amigas - no caso, a Inglaterra - Dom João VI é mais direto, transparente, pois faz referência “ao prejuízo de meus vassalos e de minha Real Fazenda, em razão das críticas e públicas circunstâncias da Europa”.
Enfim, existe pouca ou nenhuma verdade nessa cruzada a favor das reformas, onde a imprensa e o esquema do poder, em nome da sociedade, reciclam a conduta da pior fase de 1964, que recorria ao bordão “nunca fomos tão felizes” ou ao risco de endurecimento do regime. Nessa linha estão os ex-comunistas da banda “mangue's perestroika”, chefiada por Roberto Freire, que disputava espaço com a orquestra neo-liberal “Bob Fields”, regida por Roberto Campos. Essa gente toda “roga” por nós. Não em nome de suas convicções, interesses, mas invocando ideais da sociedade brasileira. Como estratégia, tática, faz sentido. Mas como expressão da realidade, da verdade, não passa de uma condenável fantasia, que mistifica e conduz a perigosos equívocos.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.